SOLTANDO AS AMARRAS…Alberto Rostand LanverlyMembro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e da Academia Maceioense de LetrasFilho de Magistrado, tive uma infância feliz. Lembro que meus pais sempre delinearam meu futuro, embasado em pilares de sustentação, que, tempos depois, passei a compreender em plenitude: humildade, humanidade, honestidade, disciplina, gratidão e generosidade. Mas, os grandes legados que me outorgaram foram a educação e instrução: Colégio Marista em sua época de ouro, aulas particulares, bons livros.
Com pouco mais de sete anos de idade, era aluno, regularmente matriculado, no “Conservatório” de Dona Venúzia, no centro da capital; na Cultura Francesa, do “Monsieur Gayon”, com sede na Rua do Imperador, e de Inglês, na casa de Dona Creuza Acioly, no Bairro da Pajuçara, defronte ao casarão onde hoje funciona o DNIT.O corre-corre era grande. Até porque, não possuindo automóvel, tinha que “caminhar” a meu destino, ou até quase ele. Como residia na Rua Santa Cruz, próximo à Embratel, chegar às aulas, de “jogral, postura de voz, piano, acordeom” e “Francês”, era fácil, quase “um pulo”. Contudo, estar sentado em uma banca escolar no exato momento em que Dona Creuza e suas filhas, “Sandra e Marília”, diziam “good afternoon”, era mais complicado.Meus genitores possuíam bons amigos. Entre eles, Fernando e Leninha Mota, chamados por mim de “tios” e residentes no bairro do Poço, na rua que ligava a Vila dos Bancários à Avenida Comendador Calaça. Suas filhas, Flávia e Rosana, eram minhas “colegas de turma no inglês”. Eles possuíam uma Rural Willys, verde e branco. Gentilmente me ofereciam “carona”, ida e volta. Minha mãe sempre caminhava comigo. Na época não existia a ladeira Geraldo Melo: descíamos a “Catedral”, Barão de Atalaia, cruzávamos uma “ponte de ferro” sobre o Riacho Salgadinho, depois a Praça Senhor do Bonfim, cinema Plaza, do “Hermann Voss” e, finalmente, o destino final. Caminhada longa, mesmo quando utilizávamos o “atalho”, hoje inviável, de descermos no oitão do Colégio Marista, até o Poço. Ali despedia-me de minha genitora e já no “carrão” dos amigos, partia para os cuidado de “Dona Creuza Acioly”, uma pessoa muito importante em minha formação intelectual.Especificamente, falando sobre as aulas de inglês, lembro que os avanços eram incríveis. Quanta felicidade, de meus pais, quando, à noite lhes repetia as novas frases que aprendera, principalmente quando rezava, no idioma do “Tio Sam”, a “Ave Maria e o Pai Nosso”, antes de dormir.Os tempos passaram e hoje, como que repaginando a vida, escuto “Arthur, meu neto” com três anos de idade dizer: How are you Vovô Rock? Sua calça é Black, sua camisa é yellow, the day is beautiful. É o ciclo da vida, a história que se repete. É “Arthur, meu neto”, dando os primeiros passos para “soltar as amarras” que o prendem ao cotidiano, deixando claro que, da mesma forma que comigo aconteceu, décadas atrás, apesar de saber que o local mais seguro que se pode vivenciar é ao “lado de seus familiares” ,definitivamente ali ele não ficará, pois, sempre haverá de saber que, da mesma forma que seus pais e avós jamais andarão para trás, ele nunca haverá de descansar, tentando ultrapassar o que seus ancestrais conquistaram.“Arthur, meu neto”, haverá de ser o cidadão do mundo, trazendo em seu coração as prerrogativas, que lhe sejam legadas.


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