A (NEM TÃO) CAPRICHOSA ESTATÍSTICA
Ronald Mendonça
Médico e Membro da AAL
A morte inopinada de uma jovem durante uma corriqueira cirurgia plástica vem mobilizando a libido dos alagoanos. Mórbidos, somos pródigos em más notícias. Na esteira da comoção e na incessante busca de culpados, tem-se responsabilizado a ausência de UTI como causa da evolução fatal. Tendo à cabeceira experientes profissionais, pelos relatos, a paciente recebeu os cuidados requeridos no próprio Centro Cirúrgico, que é por si só uma grande UTI, equipada para assistir doentes graves. Nessas circunstâncias, a paciente teria que ser a posteriori acompanhada numa UTI.
Sexagenário,40 anos de profissão, tenho alternado os dois lados do birô. Não faz muito tempo, perdi meu irmão Robson numa UTI, depois de submeter-se a um procedimento cardiológico. Para um cidadão que estava trabalhando, lúcido, sem queixas, as complicações evisceram a extensão da nossa vulnerabilidade, sobretudo a superficialidade do domínio científico. Por isso, menos empáfia até que cai bem...
Anos antes, na UTI da Beneficência Portuguesa, em S. Paulo, minha mãe foi vítima de “barotrauma”, incomum complicação produzida pelo próprio aparelho que a ajudava a respirar. Como agravante, a plantonista era inapta para resolver a emergência. Desastres assim fazem desmoronar aquelas “certezas patéticas” de que o “melhor médico de Alagoas é o voo da TAM para S. Paulo”. O exemplo gritante é o do Lula...
A propósito, tempos atrás um político alagoano foi parar numa UTI, em septicemia, após passar por tratamento dentário. Recuperado, depois de vários dias vagando no vale das sombras, deu uma entrevista deixando subentendido que iria processar o dentista. Caso público, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, tomei a liberdade de, por e-mail, lembrar ao valetudinário que ele tinha sido “vítima” de uma vertente da matemática chamada estatística. Explico: não obstante orientações médicas (e odontológicos) possuírem confortáveis margens de segurança, não se escapa das complicações. Não existe procedimento 100% seguro. Ironicamente, foi jogando com essas mesmas estatísticas (ou probabilidades) que o aludido político escapou.
Entre os casos rumorosos, Tancredo Neves, Lara Resende, a saudosa Clara Nunes e o jogador Geraldo, promessa do Mengão nos anos 70, caíram, infelizmente, no lado improvável das estatísticas.
Por último, não se deve ser esquecer de que as melhores equipes detém os menores índices de complicações e os maiores de bons resultados...
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