O DRAGÃO
SUBMISSO
RONALD
MENDONÇA
MÉDICO E
MEMBRO ELEITO DA AAL
Nos anos 60 do
século 20, um parente – fumante compulsivo e contumaz freqüentador de rodas de
dominó e cachaça – apareceu rouquenho. A despeito das limitações diagnósticas
da época, finalmente descobriu-se um câncer na laringe. Em São Paulo, o famoso
Jorge Fairbanks, do HC, amputou-lhe boa parte do órgão e garantiu-lhe uma
sobrevivência de quase duas décadas.
Lembro de sua figura franzina, voz perto do inaudível, com um véu ao pescoço a
proteger-lhe a redentora traqueostomia. Se a Souza Cruz perdeu um consumidor, o
dominó e a branquinha comemoraram o retorno glorioso de um dos seus grandes
astros.
Desde então,
muita água passaria sob a ponte. Hoje, dependendo do estágio da doença,
protocolos de tratamento já dispensam o bisturi do cirurgião, as grandes
mutilações, optando por modelos mais conservadores, não obstante, muitas vezes
devastadores em relação ao estado geral do portador.
Como um macabro
e inopinado desígnio, tendo como pano de fundo a hereditariedade e outros
“fatores de risco”, a estatística mostraria sua fria face para o nosso ex-presidente. Íntimo da caninha
e do tabaco – segundo dizem - alçado à condição de semi-deus pelo povão e puxa-sacos em geral, a doença tem despertado
comentários dispares. Isolados os odientos, que exigem que Lula vá para o
inferno do HGE Osvaldo Brandão -uma utopia - o câncer ex-presidencial impõe
algumas reflexões.
É preciso que
se diga que a população leva de 2
a 3 meses para iniciar um tratamento do qual é alvo o ex. Pelo SUS, quimio, radioterapia e a própria
cirurgia são verdadeiros rallies. No país prevalece uma regra perversa: todos os setores
financiados pelo poder público devem ter preços justos, menos os serviços
médicos. É por isso que a magra sinistra deita e rola. Para piorar, há quem
conspire pela não criação de novos centros de radioterapia nos Serviços
Públicos...
Apologista inflamado
do sistema de saúde, a quem denominou do
mais perfeito do mundo, Lula e bajuladores até que poderiam se desculpar e
admitir que toda aquela fala não passava de proselitismo etílico. Mas como? Se
é por essas e outras que se está
mantendo no poder o que existe de mais puro e belo, e inocente como a flor, da
política brasileira.
Em meio a
comoventes explosões de otimismo, uma aura a mais irisa a figura de Inácio: a
de herói de corpo fechado, um São Jorge de bordel, com sua certeira lança no
gogó do terrível dragão do câncer, tornado dócil, humilde e submisso diante de indômita coragem, de ilibada moral.
Síntese de Teseu, Ulisses e Hércules, nenhum bicho cabeludo lho prevalecerá.

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