O PACIENTE
Ao ver o patrão cair no chão, no macio tapete persa da sala, Lidinalva gritou desesperada: “Socorro, Seu Raul morreu”. Chegou-se mais perto, ouviu um estranho ronquejar na boca, pensou, é o ronco da morte. O porteiro do prédio ao ouvir os gritos de desespero, telefonou imediatamente para o SAMU.
O médico o atendeu no Pronto Socorro, apenas um mal estar, foi medicado e recomendado repouso. À noite Marinita, sua esposa, companheira 38 anos, reunida com as filhas, chegaram à conclusão, levar Raul a um médico imediatamente. Dia seguinte ele foi atendido pela doutora Alessandra, competente geriatra, a pedido de amigo. Passou-lhe uma série de exames. Mais de 15 dias perambulando em laboratórios, ao retornar, a medica fez uma minuciosa análise, deu o diagnóstico:
“Seu Raul, de uma maneira geral os exames estão bons para um homem de 69 anos, entretanto, para que o senhor tenha uma melhor qualidade de vida, é preciso mudar sua maneira de ser; pelo que me contou, terá que adquirir novos hábitos para conservar uma saúde razoável na situação de idoso.” Nosso amigo não gostou do preâmbulo da médica, detesta o nome, e ser idoso. Ela continuou. “Primeiramente emagrecer e ter mais disposição, energia, é preciso comida saudável, muita fruta e verdura, vou lhe passar uma dieta. O senhor me confidenciou ter uma vida sexual ativa estimulado por remédios, não com sua mulher, mas com garotas de programa. Nada contra, problema é seu, o senhor deve consultar a um cardiologista para verificar uma cota mensal desses remédios. Quero que ande 30 a 40 minutos quatro vezes na semana.” Raul não estava gostando de ver uma jovem médica interferindo em seu modo de vida; ela concluiu. “Seu Raul, a vida é o bem mais precioso que temos, cada dia estamos mais perto de nossa morte, é imutável, inexorável, é a grande verdade de nossa vida. Se o senhor quiser melhoria de vida antes de a morte chegar, cumpra o que os médicos lhe prescrevem. Uma boa tarde para o senhor”.
Raul saiu do consultório arrasado, não porque haveria de fazer um sacrifício no comer, no beber, nas meninas, nas coisas que tanto gosta, ele ficou desatinado pela perspectiva da morte, nunca parou para pensar. Em casa contou o que pode à mulher, Raul iniciou uma nova vida.
Obediente à dieta, bebe menos, andadas diárias, diminuiu o ritmo dos remédios e das meninas, o médico limitou duas pílulas ao mês. O problema ficou por conta da idéia da morte chegando, deu-lhe uma tristeza profunda ter a consciência de mais poucos anos de vida, da velhice chegando e ele chegando ao fim.
Ao retornar à medica falou na sua depressão, na tristeza da perspectiva de morte a qualquer momento. A Dra. Alessandra indicou-lhe e marcou consulta de uma terapia de idosos realizada por uma psicóloga no Recife. Na quarta-feira Raul pegou o ônibus. Deixou o consultório encantado com a primeira sessão de terapia. Toda quarta-feira ele acorda alegre, viaja no primeiro ônibus. Sente-se feliz ao entrar no consultório e conversar uma hora com a doutora, uma bela cinquentona. No quarto mês de tratamento Raul havia se transformado encarando a morte com naturalidade, acabou-se a depressão. A psicóloga fez a cabeça de nosso amigo Raul.
Há mais de um ano ele vive da expectativa de suas idas ao Recife, viaja toda quarta-feira, só retorna sexta pela manhã, tratamento intensivo. A competentíssima psicóloga é uma mulher carente, o marido deixou-a por uma garota de 28 anos. Nesse último ano ela ficou empolgada com a dedicação, romantismo e agradecimento do Raul, por conta desse afeto mútuo comete um ato antiético na medicina, toda quarta e quinta feira dorme junto ao seu cliente predileto num hotel de Boa Viagem. Faz parte da terapia, diz Raul, o paciente.

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