SÍLVIA, A INCOMPREENSÍVEL
Curtindo o entardecer da praia de Pajuçara, numa mesa da Bali, eu estava deliciando um sorvete de mangaba, daqueles que só devíamos tomar ajoelhado, quando de repente, Osório arrastou uma cadeira, sentou-se a meu lado. Sorriso aberto, animado, apesar de ter passado dos sessenta anos, corpo curvado, conserva o espírito jovial, veste a mais nova moda, camisa de alta grife, uma invejável felicidade explícita em seu rosto. Fui indiscretamente ao âmago da questão perguntando se ainda estava de caso com sua aluna da Faculdade. Ele não se fez de rogado:
- “Cada dia gosto mais daquela mulher, não sei viver sem ela. Desde que a conheci tivemos amor recíproco, apesar de 40 anos de diferença na idade. É uma criatura encantadora, advinha meus pensamentos, faz qualquer coisa para me agradar. Aprendi muito na cama, ela gosta de ler sobre sexo, sabe muita coisa, uma maravilha! Mas, a vida ainda não está como desejo. Você acredita que minha dileta esposa que lhe admira, a Silvinha, descobriu tudo, aliás, eu fui sincero, confessei meu caso de amor, Sílvia não quer aceitar. Logo agora que falei com o pai da moça, a família acolheu nosso romance, estou me dando bem com meus “sogros”, eles têm maior orgulho do genro professor universitário. Para mostrar minhas boas intenções mandei construir um apartamento, uma puxada na casa do sogro no Vergel do Lago, banheiro independente, ar condicionado, aliás, dei um ar novo à sogra no Natal, ela me adora. Toda sexta-feira me mudo para o ninho do amor, onde eu e Regina nos amamos intensamente nos fins de semana. O problema todo é que Sílvia não aceita esse meu relacionamento, expliquei para ela que o homem é polígamo por natureza, que os sábios orientais têm normalmente mais de uma mulher, desde que possa sustentá-las”
Nessa altura dei uma intervenção. “- Osório, os orientais, os mulçumanos têm essa cultura milenar, porém estamos no Brasil, país ocidental colonizado por portugueses com mão pesada da Igreja retrógada e inquisitória. Somos um país conservador, a monogamia está na legislação, embora na prática, homens e mulheres pulem a cerca como tomo sorvete. Você sabe que a bigamia no Brasil é crime?”
- “Sei de tudo isso, respeito à lei, não me casei duas vezes, tenho duas mulheres o que é diferente. O homem é, antes de tudo, um animal polígamo. Sabia que um dos maiores homens da humanidade, Gandhi, não dispensava uma mulher nova, bonita e carinhosa?”
E rematou sem mínimo remorso na consciência:
_ “Meu único problema é Sílvia, ela não quer aceitar essa situação, nossos filhos moram longe, são independentes, ajudo se necessário. Posso sustentar outra mulher. Divido bem meu tempo, durmo no fim de semana no ninho do amor; durante a semana com Sílvia, a esposa, que ainda amo muito, amo as duas mulheres, e daí? As artimanhas do amor são inesperadas, ninguém está preparado para acidentes do coração. Semana passada sem as duas saberem, armei um encontro entre Regina e Sílvia, Regininha não teve problema deu sorrisos para minha mulher, estendeu-lhe a mão. Sílvia foi grossa não quis apertar a mão de minha namorada, saiu da Barraca Pedra Virada, onde organizei o encontro, pegou um taxi. Quer a separação, que eu saia do apartamento, eu não quero. Estou fazendo tudo para conciliar a situação, mas Sílvia conserva intransigência, ela é muito incompreensível”.
Naquele momento, uma charmosa jovem, morena de lábios carnudos, sensuais, bateu às costas de Osório. Ele mal me apresentou, foram sentar-se em outra mesa, parecia casal em lua-de-mel, a diferença de idade visível, era risível. Pedi outro sorvete, de pinha, enquanto apreciava o pôr-do-sol pensando na leveza da consciência de Osório e na “incompreensão” de Sílvia.

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