A FESTA DE PAFINHA
Ninguém sabia seu nome
verdadeiro, que dirá sobrenome. Os amigos a conheciam como Pafinha. Moça bonita,
pele clara, cabelos lisos, olhos vivos, meio estrábicos. A boca rosada
escancarava um permanente sorriso. Esbanjava beleza e graça de quem é jovem e
feliz, tinha um sinalzinho bem na ponta do nariz.
Uma líder entre as companheiras de
trabalho. Todos amavam aquela moleca sapeca. Pafinha trabalhava muito, fazia
vida na Boate Tabariz. Tornou-se a rapariga predileta do dono da noite da
cidade, o popular Mossoró.
Nascida em Pariconha, sertão das
Alagoas, sua família passava fome. Até 15 anos só havia conhecido miséria e
pobreza. Um cabo de polícia, casado, encantou-se com a beleza da menina.
Estuprou-a. Para amenizar a situação, prometeu casa e amigação, levou a menina
para a capital. Largou Pafinha na zona da boemia em Jaraguá.
Tornar-se prostituta foi uma grande
transformação. Cursou a universidade da vida. Era a mais querida do cabaré.
Tratava os frequentadores da boate pelo nome, podia ser delegado, senador,
coronel ou capitão.
Pafinha possuía fortaleza e valentia
atávicas, gabava ser sobrinha-neta de Maria Bonita. Intransigente em seus
princípios, não admitia o homossexualismo ou que mulher virasse o disco.
Certa vez, um jovem boêmio frequentador
das boates de Jaraguá, hoje respeitável médico, levou Pafinha para o
quarto. Depois de alguns carinhos,
exigiu o vira. Ela recusou. O acadêmico deu-lhe uma tapa, empurrou-a estatelada
na cama. Pafinha, deitada, enfiou a mão no criado-mudo, tirou uma faca da
gaveta, levantou-se, avançou segurando a arma deu uma estocada em direção ao
jovem. Ele protegeu-se com o braço. No Pronto Socorro levou 20 pontos. A
cicatriz ainda hoje permanece na mão direita do doutor.
Naquela época, nas tardes de domingo,
havia um grande bingo, fonte de recurso para construção do estádio de futebol
Trapichão. Mossoró levava algumas raparigas ao bingo. Pafinha deu maior sorte,
ganhou um carrão IMPALA. Um agiota comprou o carro na hora. Dinheiro que a
menina jamais pensou possuir.
Na mesma noite ela iniciou uma festa em
Jaraguá. Todos queriam abraçá-la, pedir emprestado. A festa durou oito dias e
oito noites. Pafinha não tinha noção de economia, seu coração solidário e
generoso emprestou e deu muito dinheiro.
Fez festa na ZBN, Zona do Baixo Meretrício, para os estivadores,
pescadores, catraieiros, amigos das horas vagas, que não podiam frequentar os
cabarés luxuosos nos casarões.
Uma semana de alegria e diversão
durou a festa de Pafinha. Só acabou quando percebeu não ter mais um centavo do
dinheiro do bingo. Lembrei-me do filme dinamarquês, vencedor de Oscar,
“A Festa de Babete”
Durante o dia Pafinha tinha um
programa predileto, mergulhar no mar da Avenida da Paz. Frequentava uma birosca
de praia, gostava de ouvir histórias de Seu Rodolfo, velho pescador, sobre
peixes enormes, Yemanjá, sereias, botos salvando vidas, empurrando afogados até
a beira-mar.
Ela aprendeu a nadar, boiava, mergulhava,
até o pôr-do-sol avermelhar o céu. A sertaneja sentia-se feliz no imenso
oceano; dizia estar ali seu destino.
Semana passada encontrei Rodolfinho,
filho do finado Rodolfo num botequim de Jaraguá. Ele também é pescador,
continuou a profissão do pai. Ao lhe perguntar se lembrava de Pafinha, ele
tomou uma lapada de cachaça, emocionado, contou-me o destino da bela rapariga.
Há alguns anos a amiga desapareceu num banho de mar, seu corpo nunca foi encontrado.
Disse-me convicto, Yemanjá veio buscá-la, transformou-a em um boto bonito que
vagueia no mar salvando afogados.
Há muito tempo não acontece afogamento no
mar da Avenida da Paz. Quando algum banhista mais afoito perde o controle se
afogando, aparece de repente um boto atento mergulhando, empurrando, salvando o
afogado, deixando-o na marola á beira-mar, em seguida dá um mergulho, com um
som parecendo um relincho, retorna ao fundo do mar, se junta ao cardume.
Durante as conversas noturnas nos bares,
no mercado, na zona da boemia, marinheiros, pescadores, prostitutas contam
histórias de salvamentos inexplicáveis. Atribuem esses milagres à Santa
Pafinha, protetora dos boêmios, dos bêbados, das prostitutas e dos afogados de
Jaraguá.

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