22 de janeiro de 2003: O samba se despede do sorriso de Dona Zica, a primeira-dama da Mangueira
Uma das figuras mais ilustres da Estação Primeira da Mangueira, Eusébia Silva Oliveira, 89 anos, a Dona Zica, morreu pela manhã em casa, na Mangueira, Zona Norte do Rio, vítima de parada cardiorespiratória. Um médico chegou a ser chamado para tentar reanimá-la, sem sucesso. A sambista, uma das fundadoras da Verde e Rosa, tinha problemas cardíacos e foi internada diversas vezes.
Às vésperas de completar mais um aniversário, chegou a estar três dias antes de sua morte na Marquês de Sapucaí para assistir, do alto de um carro de som, a um ensaio da sua Mangueira. De bem com a vida, como sempre esteve, dona Zica sorria e batia palmas. E, enquanto se inclinava para o mestre-sala Delegado que tomara lugar a seu lado, chegou a dizer: "Estou feliz".
Viúva do compositor Cartola, foi, ao lado do marido, responsável por capítulos importantes da história da música popular brasileira. Foi no restaurante Zicartola, na Rua da Carioca, 53, criado pelo casal em 1962, que a juventude da Zona Sul carioca começou a ter um contato direto com o samba que se fazia nos morros e subúrbios da cidade. Não há compositor da velha-guarda da Mangueira, nome famoso da MPB ou amante do samba que tenha esquecido este endereço.
A primeira-dama da Mangueira nasceu no bairro da Piedade, e, aos 3 anos de idade, mudou-se para a Mangueira. Quatro anos depois, começou a trabalhar em casa de família para ajudar a mãe viúva e teve que se mudar para Copacabana, mas visitava a Mangueira a cada 15 dias. Aos 19 anos, casou-se com Carlos Nascimento, ficando viúva aos 35 anos, com cinco filhos para criar. Quatro anos depois, aproximou-se de Cartola, a quem conhecia desde criança, e também ficara viúvo. Logo, estavam morando juntos, mas o casamento só aconteceu onze anos depois.
Nos dois últimos anos de vida de Cartola, quando o marido, doente precisava de cuidados, Dona Zica teve que deixar a Mangueira, indo morar em uma casa no bairro de Jacarepaguá, zona oeste do Rio. ''Mas o Cartola morreu numa semana e, na seguinte, eu já estava de novo morando na Mangueira. Não fumo, não bebo. Meu único vício é a Mangueira. Eu quero morrer aqui'', disse. Seu pedido foi atendido. Dona Zica morreu no número 824, no Buraco Quente, na Mangueira, onde morava.
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