LEDO IVO NÃO MORREU; AUSENTOU-SE
J. R. Guedes de Oliveira
Nestes dias que antecede o Natal, a notícia da morte do querido Ledo
Ivo, na Europa, onde se encontrava, causou-nos grande comoção. Homem
ativo, destes que a Alagoas produz soberbamente, pela grandeza do seu povo
e pela sua presença nas letras, o poeta da Academia Brasileira de Letras vai,
ausentando-se do nosso convívio.
Em 2006, atendendo o meu pedido, já que sou um dos biógrafos do seu
conterrâneo Octavio Brandão, fez uma introdução ao meu estudo “Saudade”,
ainda, infelizmente, não publicado. As editoras não estão muito atentas aos
estudos históricos, mormente em se tratando deste, que é a explanação da
origem e aclimatação em nosso meio da palavra saudade, de origem galega-
portuguesa.
Perdemos, assim, uma das mais nobres figuras da poesia e Alagoas,
por certo, chora a ausência desse filho dileto. Ledo Ivo foi, acima de tudo, um
“alagoano arretado”.
Nascido em Maceió, 18 de fevereiro de 1924 e falecido em Sevilha, 23
de dezembro de 2012, filho de Floriano Ivo e Eurídice Plácido de Araújo
Ivo foi um jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta brasileiro.
Seu primeiro livro foi As Imaginações. Fez jornalismo e tradução. Da sua
vasta obra, destacam-se títulos como Ninho de Cobras, A Noite Misteriosa, As
Alianças, Ode ao Crepúsculo, A Ética da Aventura ou Confissões de um Poeta.
Era membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 13 de novembro de
1986 para a cadeira 10, sucedendo a Orígenes Lessa.
Em memória desse cancioneiro da poesia brasileira, transcrevo, aqui,
esta introdução ao meu livro (ainda inédito em edição) - “Saudade”:
UMA PALAVRA ONDULANTE COMO UMA VAGA DO MAR
Abro o quinto volume do Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro
da Lingua Portugueza, do dr. Fr. Domingos Vieira, dos eremitas calçados de
Santo Agostinho (edição do Porto, de 1874) e leio: “Saudade, s.f. A magoa que
produz em nós a ausencia de cousa amada, com o intento de a ter presente, e
de a tornar a ver”.
Mas que coisa amada? Pode ser tudo: o corpo (ou a alma?) de uma
mulher, uma paisagem, a pátria, um instante esvaído no tempo como todos os
instantes, um objeto perdido, algo que não sabemos mesmo o que seja.
Nenhuma língua ocidental, a não ser a portuguesa, tem apenas uma
palavra para exprimir esse sentimento ao mesmo tempo concreto e esquivo
que exprime quase uma dor ou um pungimento: uma sensação que possui
algo de indefinível, de remoto e de presente, e nos remete à evocação de uma
coisa perdida ou situada na distância, ou diluída para sempre pela marcha
das estrelas. Somente a nossa língua natal exprime e sabe exprimir, com
apenas uma palavra ondulante como uma vaga do mar, esse sentimento
simultaneamente vago e concentrado. Nenhuma das milhares de línguas
terrestres possui esse poder, esse encanto e desencanto.
Desde o alvorecer da literatura e da poesia na portuguesa língua a
saudade está presente no verso e na prosa. Ela está, vernácula, em Gil
Vicente e Camões, Antonio Ferreira e Sá de Miranda, Diogo do Couto e Fernão
Lopes; em Garrett e Antonio Nobre; em Camilo e em Eça de Queiroz; nos
nossos Castro Alves e Gonçalves Dias, José de Alencar e José Lins do Rego;
em Manuel Bandeira e em Ribeiro Couto; em Olavo Bilac e Guilherme de
Almeida. Em todos nós, ou em quase todos nós. Embora a palavra saudade
não figure na “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, ela se expande, numa
irrigação maravilhosa, em todo o poema, ditado pela nostalgia da pátria situada
do outro lado do Mar Oceano – e, sendo um poema nacional, um canto da
nacionalidade, uma alta e doída expressão da alma ferida pela ausência,
traduz um sentimento imperecível de todos os brasileiros, os de ontem, os de
hoje, os de amanhã.
A palavra misteriosa, tão estudada pelos filólogos e lingüistas que
interrogam a sua origem e acompanham a sua trajetória, atravessa os
séculos sem se despojar de seu orvalho e pungência. Sentiram-na os
marinheiros portugueses que, em busca do Oriente, enfrentaram tempestades
e conheceram o infortúnio dos naufrágios e a morte; os frades que foram às
Índias evangelizar os infiéis; e os emissários reais designados para obter as
riquezas e especiarias da Ásia.
Eram saudades da pátria, as mesmas experimentadas pelos imigrantes
que, no Brasil, se lembram da terrinha, da aldeia natal entre montanhas. E a
sentimos todos nós – nós, que às vezes temos saudades até de nós mesmos,
do que fomos ou do que desejaríamos ter sido. Nesta era eletrônica, a saudade
não se apartou de nosso universo pessoal, do nosso eu profundo.. Não
saberíamos viver sem ela, sem o que ela diz e evoca, sem a aura que ela nos
devolve, sem o relâmpago que ela guarda.
Este livro de José Roberto Guedes de Oliveira nos conta, mais uma vez,
a história dessa palavra: uma história que será sempre contada e recontada
como se fora um conto de fadas ou uma velha história de amor e desamor.
*LÊDO IVO, poeta, romancista, contista, cronista
e ensaísta maceioense. Da Academia Brasileira de Letras.
Em: 02.08.2006

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