quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

UM TEXTO DE J ROBERTO GUEDES DE OLIVEIRA


LÊDO IVO - TRIBUTO

J. R. Guedes de Oliveira*


Ao tomar conhecimento do falecimento do poeta, jornalista, romancista,
contista, cronista, tradutor e ensaísta maceioense Lêdo Ivo, da Academia
Brasileira de Letras, não poderia deixar de prestar-lhe tributo, pelo muito que
fez pelas nossas letras.

Sua terra natal, nas Alagoas, recebe, comovida, a infausta notícia dessa
personalidade carismática e que nos legou obras primas da literatura nacional,
endossando o que nos disse o Governador Teotônio Vilela Filho: “Lêdo Ivo
é uma referência de sensibilidade poética e de visão do mundo com o olhar
do coração e da alma; suas obras extrapolaram as fronteiras do Brasil, com
publicações em vários idiomas. Lêdo Ivo está no mesmo patamar de Aurélio
Buarque de Holanda, Pontes de Miranda, Graciliano Ramos e Rachel de
Queiroz. Ele deixa um legado inestimável para a literatura brasileira”.

Foram 88 anos bem vividos. Num depoimento do tambérm acadêmico
Ivan Junqueira, com o título de “Quem tem medo de Lêdo Ivo?”, assim ele traça
o perfil do alagoano que, sem a menor sombra de dúvidas, é o representante
maior das letras do nosso Brasil de contrastes e confrontos. Esse depoimento
foi feito em março de 2004, por ocasião do lançamento da monumentala obra
“Lêdo Ivo - Poesia Completa”, com 1099 páginas, pela Topbooks Editora,
patrocinada pela Braskem, por ocasião das comemorações dos 80 anos do
insigne poeta:

“Autor opulento e às vezes desmedido, Lêdo Ivo, como já dissemos,
deve ser visto, também, à luz do excesso e da magia retórica. Sua poesia,
embora severa do ponto de visto do uso da língua, é polifônica e tem algo da
composiçsão heteróclita daqueles retábulos medievais, abrangendo o cultivo
de todos os mestros e de todas as formas. É a um tempo lírica, elegíaca,
reflexiva, sarcástica e às vezes escarninbha. É um universo do qual o leitor
poderá não compartilhar, mas que jamais terá o direito de ignoar, tamanhas
são a sua riqueza e a sua varidade. Quem tem medo de Lêdo ivo somente o
tem por temer a poesia, uma poesia que desceu às raízes do ser e ao horror
da existência. Mas o horror, como nos ensina Eliot, nada mais é do que um
passo rumo à glória. Não há por que temê-lo, leitor, mas antes reverenciá-lo no
limiar da sua eternidade”.

Na página 305, da referida obra, lê-se um poema dedicado a Aderbal
Jurema, com o título de “Ponta Verde”, onde Lêdo Ivo extravasa o seu
acendrado amor pela sua cidade natal. Eis, aqui, a preciosidade do já saudoso
alagoano:

De cardume de peixe e cata-vento,
se céu liberto do torpor do outono,
eis-me, ponta da terra, Ponta Verde,
nesta simulação de hora sonhada.

Um rasto de salsugem intimida
o cuspe do oceano pelas tardes.
Palma de sal e seiva, minha infância
te viu, coqueiro, sombra simulada.

Regressando ao perempto, não procuro
o antigo mar: arraias e tainhas.
Onde me vi assim, entre que fragas
a vida apareceu sem ser chamada?

Ladeando a sombra que trouxe de longe,
este pouco de sul, oferto-o ao mar
reagrupado em antes e depois.
E o antigo vento voa, ressurrecto.

Oh porta do outro lado, estrela e estátua
de centro e pedestal plantados n´água!
Parti-me deste sol, vim desta sombra,
e a vida bebe os anos, como as palmas.

Nascido em Maceió, em 18 de fevereiro de 1924 e falecido em Sevilha,
Espanha, neste dia 23 de dezembro de 2012.

*J. R. Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador.
E-mail: guedes.idt@terra.com.br

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