quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

DO FACEBOOK DE HELOÍSA HELENA


Morreu nosso Lêdo Ivo... Poeta, Escritor! Estivemos juntos por horas há apenas 2 semanas... conversamos sobre as imensas injustiças de Alagoas que tanto o indignava, mas também rimos muito e passeamos nas calçadas contemplando nosso Mar e conversando com quem passava... aliás, até “perdemos” o carro e disso rimos demais!!! Só comigo mesmo... sair pra jantar com o Grande Lêdo Ivo e não lembrar onde estaciona o carro e ainda esquecer de tirar fotos! Ele – na eterna fofura e delicadeza comigo – encaminhou como lembrança deste Natal, uma linda publicação em grandes postais com os seus poemas escolhidos sobre Alagoas! Lêdo Ivo, como tantos, infelizmente pra ser “reconhecido” precisou daqui sair... o velho e monstruoso horror da inveja que aniquila quem ousa ser o que é e destrói quem não aceita o servilismo político... tal qual no seu verso “Mas caso me proíbam de passar... por ser eu diferente ou indesejado... mesmo assim eu passarei. Inventarei a porta e o caminho e passarei sozinho” ou ainda "Falo pelos que não falam... Grito pelas bocas mudas... Estou além da mortalha, da mentira e da mordaça!". Compartilho com vocês a mensagem que ele me mandou e um dos seus poemas escolhidos:

Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando
[sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas
[carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos
[e impaludados não param de
[tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as réstias de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria
[muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.

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