quinta-feira, 7 de junho de 2012

Os Pobres Agora Estão nos Aeroportos - HOMERO FONSECA

06 de Junho de 2012 às 18:09 em por Homero Fonseca
InfraeroZOOM
Aeroportos lotados: culpa dos pobres!


Há um poema de Ledo Ivo, de 1982, que sempre me comove. Chama-se “Os Pobres na Estação Rodoviária” e deveria constar em toda antologia da melhor poesia brasileira.
Mas vamos a ele:


Os Pobres na Estação Rodoviária
Ledo Ivo


Os pobres viajam. Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida na névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão que
tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências, não sabem
portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma eles vão e vêm, saltam e seguram
malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidas nos guichês, sussurram
palavras misteriosas
e contemplam as capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida.
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê que doem
na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos
lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

(in “A Noite Misteriosa”, 1982)

Outro dia, conversando com o poeta, disse-lhe que a situação evoluíra e graças aos vários programas de estabilização monetária e redistribuição de renda os pobres agora ocupam a cena nos aeroportos brasileiros.

Agora, não resisti e, mesmo sem as credenciais para me arvorar em poeta, cometi uma paráfrase do belo poema. Devidamente autorizado, apresento-a aqui:

Os Pobres no Aeroporto
Homero Fonseca
D’après Os Pobres na Estação Rodoviária – Ledo Ivo

Poeta,
Seus pobres se multiplicaram e agora viajam de avião.
Nos aeroportos postam-se atarantados diante dos
letreiros de arrivals e departures. Naturalmente
não sabem inglês, mas invadem as salas de embarque,
com sua tralha e o desconforto que se esmeram em disfarçar.
No check in, fazem-nos esperar horas no despacho
das malas sem fim cheias de pequenos sonhos patéticos,
e presentes comprados nas lojas 1,99.
Trazem em seus sapatos engraxados a poeira
das periferias descalças e já não vestem o mesmo
casaco que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
mas sim contrafações paraguaias das grifes
dos nossos filhos e mulheres.
Abriram mão do sanduíche de mortadela porque
lhes contaram que servem comida a bordo – saquinhos de
amendoim e barrinhas de cereais que eles se enredam no abrir.
Entretanto, entre o rumor dos alto-falantes
e o estrondar das turbinas, eles tudo observam
com seus olhos de permanente interrogação.
Cochilam amontoados. E acordam menos assustados.
Os jovens, então, sem noção do seu lugar na escala dos voos e
da vida, zanzam pra lá e pra cá, com o ar ausente de quem
escuta funk em seus i-Pods adquiridos em 36 prestações.
No mais, Poeta, tudo continua igual:
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências, não sabem
portar-se em público.
Fazem perguntas descabidas nos guichês, sussurram
palavras misteriosas
e contemplam as capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida.
Por isso não conseguem ocultar a insegurança daqueles
que vivem numa eterna corda bamba, sem redes para apará-los
quando despencam dos prédios em construção.
Os pobres não sabem viajar... 
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora hoje todos tenham televisão e alguns até
calhambeques que atravancam nosso ir-e-vir
nas ruas atulhadas das cidades.
Como disseste, com certeira mira, Poeta:
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam nosso espaço,
principalmente quando, entrenuvens, dissipam o medo
e nos obrigam a escutar, da classe executiva,
o barulho dessa insuportável e inexplicável
alegria que eles carregam aonde quer que vão.

Maio, 2012.

Nenhum comentário:

Postar um comentário