sexta-feira, 20 de abril de 2012

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA


ANEDONIA

Ronald Mendonça

Médico e Membro da AAL



Dias desses, num longo documentário, o diretor e ator Wood Allen confesava-se “anedônico” e
justificava: “Nunca me sinto feliz. Se estou num lugar, logo penso que ficaria melhor se estivesse em outro, a quilômetros de distância, de preferência em outro continente”.


De repente, num contexto woodalleniano, a impressão é de clima de anedonia nacional geral. Isso é péssimo para a autoestima, que, como todos sabem, aumenta a taxa de câncer da população. Pelo que ando lendo, hoje em estado de graça no País, só o Lula, o Gianechini e o ex-ministro Thomáz Bastos, por razões diversas. Os dois primeiros riem à toa pela suposta cura dos seus tumores; o último deve estar andando com bloqueadores dentários de tanta felicidade, sobretudo depois de ter como clientes o filho do Eike Batista e a síntese da moralidade brasileira, o Cachoeira.


Imaginem o nosso nível de inveja, médicos de SUS e convênios, recebendo 300 mil réis por uma
cirurgia de aneurisma e ver um cara faturando 15 milhões para defender um contraventor! O fato é que o hedonismo legislativo deu lugar a cenhos franzidos, olhares angustiados, sussurros com a mão à boca, que é para driblar a leitura labial. O medo ronda e tortura governistas e oposicionistas. É o pesadelo da CPI.


Com efeito, a tristeza é ampla, geral e irrestrita. Até Dona Dilma, uma senhora classuda, sabidamente bem humorada, tem exibido inusual carranca. Se não bastassem os escândalos de corrupção, que de palmo em palmo brotam vicejantes, não há provas de que seus auxiliares diretos não estejam envolvidos com o chuá-chuá do Cachoeira.


Nessa arca de desilusões e incertezas, não escaparam militares, bispos e comunistas (meio sem
discursos depois da falência do capitalismo). Que a Igreja ande triste com a legalização de abortos
para anencefálicos e gravidezes por estupros, é compreensível. Afinal, dentro de sua coerência, o mal formado é um ser humano; não obstante o defeito, para os que crêem, dotado de uma alma. Nas gestações pós estupros, a anedonia sobra para os obstetras, incomodados em praticar abortos de fetos saudáveis.


Com o fim do capitalismo (que não seja uma cascata), confesso minha expectativa em participar
da “nova ordem mundial” com os meus parcos préstimos neurocirúrgicos. Que chegue logo! O pequeno burguês de Bebedouro quer mergulhar de cabeça nessa grandiosa experiência socialista (comandada por Zé Dirceu, Genoíno, Orlando Silva etc), antes que o implacável Creonte o encontre.

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