sexta-feira, 20 de abril de 2012

HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA - Carlito Lima


A FESTA DO NORDESTE INDEPENDENTE

   O povo feliz, com alma lavada e enxaguada, dançava na praia da Avenida da Paz, comemorava a Independência do Nordeste. A festa varou a noite, continuou por mais 20 dias. No palco armado um vistoso pastoril cantava acenando para o povo.
    De um lado, o cordão encarnado, uma coluna com sete pastoras, moças charmosas, bonitas com seus vestidos de chita, fantasias de saias rodadas. Do outro lado, o cordão azul, outras sete jovens, louras, morenas, mulatas, todas acenavam para o povo na praia com seus pequenos pandeiros fantasiados de fitas coloridas. Entre as duas colunas, entre os dois cordões, dançava a Diana de minissaia, dividida entre azul e encarnado. Atrás da Diana, ao fundo, o pastor, segurando um cajado feito bengala com uma estrela incrustada na ponta. Todos dançavam, todos sorriam, era Festa da Independência. 
    A primeira pastora do encarnado- a Mestra- era a vereadora Heloísa Helena; a Diana, que não tem partido a afinadíssima cantora Leureny Barbosa; e a Contra-Mestra, primeira pastora do cordão azul com seu saiote rodado, a ex-prefeita Kátia Born. Elas pareciam estar com vinte aninhos iguais às outras pastoras. Atrás da Diana dançava o pastor, pelos trejeitos afeminados reconheci Lolita, um famoso fresco do Recife que costumava dizer: “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”. Cantavam a primeira jornada do pastoril:
    Boa noite meus senhores todos; Boa noite senhoras também,
    Somos pastoras, pastorinhas belas, Que alegremente vamos a Belém...
    E o povão, embaixo do palco, vibrava, e enlouquecia quando as pastoras rodavam levantando os saiotes, apareciam as pernas das dançarinas. Eram mulheres-meninas com suas bonitas e empinadas bundas cobertas apenas por uma minúscula calcinha preta. A moçada ia ao delírio, ajudada pelo artista, poeta Aldemar Paiva, animando ao microfone:
    Viva o cordão encarnado! Viva o cordão azul! Viva a Independência! 
    Sem deixar de olhar para as pastoras o povão respondia: VIVA!
    Durante toda a noite apresentaram-se fandangos, folguedos, folias, coco de roda, baiana, caboclinho, reisado, nega da costa, chegança, guerreiro e outras danças populares nordestinas.
    No Clube Fênix acontecia um agitado e divertido baile de carnaval. A orquestra do maestro Passinha tocou durante toda noite. A moçada no ginásio lotado se esbaldava se empolgava com as músicas, ia ao delírio quando a orquestra arrochava no frevo Vassourinhas. O dia foi despertando, a orquestra desceu, deu algumas voltas no salão, saiu do ginásio para a rua, puxando os foliões em direção à praia.
    O povo dançava na extensa praia de areia branca, molhada e dura, cantando música de Capiba: “Eu bem sabia, que esse amor um dia... também tinha seu fim... essa vida é mesmo assim... não penses que estou triste, nem que vou chorar... eu vou cair no frevo, vou me acabar...” Continuavam os gritos: “Viva a Independência”. “Viva o Nordeste!”.
    De repente os foliões entraram na água cristalina e morna naquela luminosa manhã. O mar de um esverdeado com matizes azuis, levemente dourado pelo sol da madrugada convidava ao mergulho. O povo lavava a roupa, a fantasia, e sua alma.  A música continuou.
De repente emergiram da água os Deuses do mar, Yemanjá, Netuno, o Príncipe Submarino e algumas belíssimas sereias com caras e rabos humanos, alegres pelo carnaval inesperado. Como no Olimpo deuses e homens se misturaram, caíram na folia. Deuses brasileiros, deuses nordestinos, deuses da água e da alegria. A festa da Independência do Nordeste durou vinte e um dias.
No vigésimo segundo dia acordei-me, nesse momento percebi, tudo foi apenas um sonho, um feliz sonho sonhado.

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