sábado, 26 de novembro de 2011

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA


Cristos, Napoleões e Césares


Ronald Mendonça
Médico. Membro da AAL

Cesarianas voltaram à baila com a divulgação das altas taxas, superando a marca
de partos vaginais, relatados como normais. Lembro do meu pai retornando de suas
jornadas médicas, atravessando noites, depois de extenuantes partos. Naquele 1945,
optar por ser clínico geral em Bebedouro era estar disposto a encarar desde a diarréia
infantil ao parto caseiro à luz de candeeiro.
Parturientes não faltavam, inclusive na própria casa. Minha mãe teve onze
filhos, todos partejados por quem contribuiu com a concepção. Sem ser exceção entre
os obstetras da época, não foi treinado para realizar cesarianas, habilidade que, segundo
as estatísticas, teria necessitado em 15% das vezes. Ou seja, 1,5 de seus filhos teriam
indicação para o método.
Tudo se move, como disse o imortal Luiz Nogueira, convocando Galileu
Galilei. Séculos se passariam desde o áspero monólogo entre o Criador e suas telúricas
criaturas. Naquela manhã ensolarada de novembro, após uma noite insone, Deus pegaria
pesado com aqueles dois cretinos irresponsáveis, que jogaram tudo fora por conta de
uma rapidinha. Ainda mais vindo com aquela conversa mole de serpente, maçã...
Com a expulsão do Paraíso, dentre outras retaliações, a mulher, coitada,
ficaria condenada às dores do parto, sentença parcialmente aliviada com a invenção da
anestesia. Presume-se que Jeová não apreciou ser contrariado. Talvez por isso, o SUS
pague tão miseravelmente aos parteiros e anestesistas, um dos alegados motivos da
diminuição dos partos vaginais.
A ultrasonografia, cada vez mais detalhista, desfez a mística e as surpresas de
um útero grávido. Há tempo de conceber e tempo de nascer. Mais de três filhos, nem
pensar. Parir como índia sem viver como tal, soa jocoso. Não ouso afirmar que a vida
moderna, culturalmente, despreparou o corpo feminino. O SUS, por sua vez, quase
exterminou os pediatras. Quem vai cuidar das crianças?
Há uma convergência para o parto vaginal virar exceção. Ficou difícil
encontrar um profissional inclinado a permanecer semivigil, por R$ 60,00, 8-12 horas
seguidas, na expectativa de um incerto nascimento. Ganha muito mais, com muito
menos responsabilidade, o sujeito que fica virando lata nas portas de restaurantes. Além
de tudo, data venia obstetras-ecologistas, considero o parto normal uma violência da
natureza.
Volto ao meu pai. Migrando da Clínica Geral para outra especialidade, livrou-se
dos partos à luz de candeeiros, mas não escapou das “cesáreas”. Sim, na psiquiatria, ao
lidar com delirantes e psicopatas, assumidos ou não, passou a conviver com simulacros
de Cristos, Napoleões e Césares. Ao original do último, equivocadamente, atribui-se
beneficiamento com a satanizada cirurgia.

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