sexta-feira, 25 de novembro de 2011

UM TEXTO DE LYSETTE LYRA



O sr. Guilherme habita uma pequena cabana ao lado de minha casa de veraneio, na praia. Ele é um verdadeiro filósofo; sem ambições, sem outro desejo que não o de uma vida simples, pura e calma.

A chaminé de seu fogão jamais fumega, está sempre apagada, porque o sr. Guilherme come somente os frutos silvestres que abundam pela região, ou os pequenos moluscos que permanecem na areia quando a maré se vai. Passa o tempo vagando pela praia, ou deitado à sombra dos coqueiros. Às vezes, pega um livro, lê algumas páginas e o abandona para observar um pássaro que voeja por perto ou o crepúsculo que desce sobre o mar, tingindo a paisagem de púrpura. Sua figura pouco asseada, sua longa barba, sua cabeleira desordenada, os trapos sujos que cobrem seu corpo, esguio e mal-cuidado, ocultam um espírito sábio e feliz.

Agrada-me imensamente conversar com ele. É tão inteligente, tão culto! Tem uma rara filosofia de vida, que me surpreende e me diverte.

Certa vez, perguntei-lhe:

– Por que o senhor não trabalha? Conhecendo tão bem tantas coisas, estaria apto a conquistar um lugar de destaque na sociedade.

Não me conformava em ver toda aquela inteligência, toda aquela cultura, perdidas numa vida inútil.

Ele me respondeu, meditativo:

“Senhora, no meu ponto de vista, o homem sabiamente ocioso consegue o clímax da intelectualidade. Os homens sábios não podem ser ocupados, os homens ocupados não podem ser sábios. Nesta vida que a senhora acha tão absurda, encontro a paz e a harmonia. Não tenho preocupações financeiras, não tenho problemas. Possuo esta pequena palhoça, como qualquer coisa, sobra-me tempo para contemplar a natureza, para observar os pássaros, para ler, para meditar e sentir a beleza que existe dentro do mundo que Deus criou para nós.

Toda a natureza se consagra ao lazer. Só o homem trabalha para sobreviver. Ele impôs a si mesmo uma vida complexa, cheia de deveres, de responsabilidades, de ambições, de preconceitos, de inibições, o que não é uma exigência da natureza, mas sim da civilização, da sociedade que ele mesmo, o homem, criou.

A vida ociosa é uma conquista da elevação espiritual. Ela se sobrepõe às ambições, às loucuras da vida, às tentações do sucesso e da riqueza. Por isso, vivo desta maneira que lhe parece tão chocante, mas que é, esteja segura, a mais espiritual e a mais humana”. 

» LYSETTE LYRA – escritora e membro da AAL.

Nenhum comentário:

Postar um comentário