terça-feira, 5 de julho de 2011

HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

   A VIRGEM IRACEMA DOS LÁBIOS DE MEL
Iracema, neta

O fato se deu no início dos anos 60, quando a humanidade era ingênua, quando não se ousava pensar em tenebrosos mensalões, as esquerdas eram puras e idealistas. No tempo que prostituta namorava.
                      Iracema tinha 17 aninhos, todo homem de Atalaia desejava seu corpo moreno. Bela cafuza, exótica e exuberante menina, cabelos negros escorridos, rosto redondo, olhos pequenos, lábios carnudos e encarnados, Iracema era conhecida como Índia, filha de cortador de cana, pobre e analfabeta, os homens taravam a alegre morena sensual.
                      Certo dia o pai morreu, cachaça, sua mãe havia fugido com um motorista de caminhão, arribou pela estrada afora, tornou-se prostituta estradeira, o maior desgosto do marido. Iracema ficou só no mundo.  Aconselhada por amigas foi tentar sobreviver na capital. Arranjou trabalho de empregada doméstica, logo foi assediada pelo patrão, pelos dois filhos e pelo avô, o bom velhinho quando olhou a Índia pensou que era moço, todos tentaram comê-la. Iracema saiu do emprego, queria continuar virgem até casar, prometeu ao pai. Não tinha para onde ir, perambulando pela Avenida da Paz teve sorte, conheceu Cícero, com pena levou-a para sua casa, pediu a mãe para dar guarida até arranjar emprego. Na casa de Cícero não se podia pagar empregada. Iracema fez alguns trabalhos em troca da comida e dormida. Difícil uma analfabeta achar emprego. Certa vez uma vizinha aconselhou: “Menina você é muito bonita, os homens lhe desejam, vá ganhar dinheiro no cabaré.” “Eu sou virgem”, disse Iracema. –“Sua virgindade vale ouro, muito coronel paga um dinheirão para tirar-lhe o cabaço”.
                O Cão, o Demo, o Belzebu ficou atentando o juízo de Iracema. Numa bela noite procurou a vizinha, pediu para levá-la à zona. Ao chegar à Boate São Jorge, bairro boêmio de Jaraguá, subiram a íngreme escada, Iracema empolgou-se com a beleza do salão. O dono, Benedito Alves dos Santos, conhecido como Mossoró, o rei da noite, chegou perto, a amiga foi falando ao proxeneta: “Pai Velho, olhe o presente que trouxe para você, essa bela índia”. Aproximou-se, cochichou no ouvido do Negão: “É virgem”.
            Mossoró, conhecedor profundo das almas das putas, interessou-se por Iracema, o fato de ser virgem, deixou-lhe empolgado. Havia quem desse mais de Cr$ 3.000,00 pelo cabaço daquela jovem. Mandou-a esperar, Iracema estava deslumbrada com a música do conjunto, a alegria da casa, os pares dançando no salão. Mossoró levou-a ao escritório, um quarto especial.
          Mossoró deu Cr$ 20,00 para amiga e despachou-a, ficou com Iracema, era todo sorriso, simpático, passava confiança às meninas, um explorador adorado pelas raparigas. Fez algumas perguntas à Índia. De repente pediu-lhe para tirar a roupa. Iracema desabotoou os laços nos ombros, o vestido de chita caiu no chão, desabrochou a beleza nua da jovem, apenas de calçola, o sangue esquentou as veias do Pai Velho, conteve-se. Se não fosse virgem ele seria o primeiro, contudo, aquele cabaço valia ouro. “Você vai passar alguns dias só aparecendo no salão, tome dinheiro, compre três vestidos na moda, toda noite fique bem bonita se mostrando de mesa em mesa, não vá para o quarto, diga que é virgem, eu vou arranjar alguém especial para lhe tirar a virgindade, depois fica trabalhando na boate.”
    Toda noite Mossoró anunciava o leilão da virgem Iracema dos lábios de mel dia 22 de março, com Show de Reinaldo, uma trupe divertida de travestis, e inauguração da luz negra no salão. Na noite marcada a Boate estava cheia; políticos, coronéis, usineiros, reservaram mesa. Foi uma das maiores festas na história do bairro boêmio de Jaraguá. O felizardo ganhador do leilão foi um fazendeiro, colecionador de cabaços, tinha um colar, cada conta, uma virgem sacrificada. Pagou uma fortuna por Iracema, a virgem dos lábios de mel.

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