sábado, 19 de março de 2011

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA

EGRÉGIAS COMPANHIAS


Há cerca de dois mil anos Aristóteles formulou a teoria da abiogênese (ou
geração espontânea) para explicar o surgimento das espécies. Segundo o grande
filósofo, a vida poderia aparecer de forma espontânea, a partir de excrementos e carnes
podres, por exemplo. Do lixo nasceriam insetos diversos, ratos e baratas, dentre outros.
A falência dessa hipótese seria definitivamente decretada pelo pesquisador Louis
Pasteur, há apenas 150 anos.
Embora já se saiba que do lixo não surgem espontaneamente minhocas, moscas,
ratos e outras espécies, a ciência já está farta de saber que lá habitam seres que podem
causar males terríveis à saúde da população. Com efeito, umas das questões cruciais dos
aglomerados humanos, o lixo pode ser fonte de desprazeres dos gestores públicos.
Inóspito por excelência, aqui mesmo em Maceió, não faz muito tempo, discutiu-
se acaloradamente sobre a conveniência da permanência do lixão ali nos morros das
cercanias de Jacarecica. Na ocasião, falou-se que sórdidos interesses econômicos,
alheios ao bem-estar público, teriam norteado as discussões.
Não obstante a conhecida insalubridade, o lixo representa uma fonte de trabalho
e renda para uma população cada vez mais numerosa, sobretudo nos grandes centros
urbanos do Brasil. Assim, muitas pessoas retiram do lixo coletado nas ruas e nos lixões
a principal fonte de sua sobrevivência. Ainda que em evidência por badalado filme –
e o tratamento glamouroso, romântico até, que a mídia quis conceder – ninguém de sã
consciência sonha para um filho a profissão de catador de lixo.
O lixo é tema recorrente nas sociedades modernas. Não são de hoje, contudo,
as suspeitas de que pode ser uma promissora fonte de rendas não só para uma parcela
miserável da população. Nesse aspecto, prefeituras que tiveram a felicidade de ter
administrações petistas receberam acusações de escuso contubérnio com empresários
do setor. Como uma geração espontânea, do lixo teriam emergido Luíza Erundina e
Marta Suplicy, em S. Paulo. Em Ribeirão Preto, Antonio Palocci acusado de igual
amatulamento, teve dificuldades em comprovar inocência.
Agora, tem-se no olho do furacão o prefeito Cícero Almeida, finalmente
denunciado pelo Ministério Público - depois de ser alvo de sucessivas denúncias na
Câmara dos Vereadores e na Assembléia Legislativa. Com fortes reverberações na
imprensa e na opinião pública, Almeida segura um pepino. De positivos: a lassitude das
leis e as egrégias companhias petistas.

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