O fim das estações
Uma pesquisa realizada nas escolas públicas de São Paulo, recentemente, aguçou a minha intuição. Concluiu, o estudo, que há um número crescente de crianças e adolescentes que desenvolvem, precocemente, pressão alta e diabetes, doenças que atingiam, não faz muito tempo, os adultos – quase que exclusivamente (há casos de diabetes em crianças e adolescentes desde sempre, mas não nos quantitativos de agora).
Motivos? A alimentação e o modo de vida, logo atinei – e foi o que ouvi. A velha e boa combinação do feijão com o arroz, recomendada por Josué de Castro, em “Geografia da Fome”, foi substituída por alimentos industrializados e pouco nutritivos – engordam mas não fortalecem o organismo. No segundo ponto, confesso: vibrei! Crianças e adolescentes de ontem faziam mais atividades físicas porque dispunham das ruas, praças e terrenos baldios, o que quase não mais existe. O suor dos “guerreiros” foi substituído pelos guerreiros sem suor – vencem todas no computador.
Foi-se o tempo em que o carnaval era, também, uma festa de rua, com duração – o corso – de mais de uma semana, e que ocorria sem muitas cenas de barbarismo explícito. E com gente de todas as camadas sociais participando, fosse do mela-mela, fosse do “passo” na frente do palanque onde ficava a orquestra.
Os carnavais, eis uma diferença imensa para os dias que hoje correm, traziam músicas próprias, que tocavam nas rádios, nas ruas e nos clubes sociais exclusivamente no período “momesco”. O mesmo acontecia no São João, festa da estação das chuvas (inverno, ao nosso modo), assim como o carnaval era o desfecho alegre do verão.
A cada ano, somavam-se aos clássicos de sempre, novos sucessos, gravados nos meses que antecediam o carnaval. Vem daí, por exemplo, “Máscara Negra”, de Zé Keti, que explodiu no final da década de 1960. Anos depois, foi a vez de Pizindim (“Lá vem Portela…”) emocionar os foliões de todo o país. Roberto Beckér, alagoano, emplacou por aqui o seu delicioso “De bandinha”, pura e ingênua malícia, enquanto Edécio Lopes apresentava os seus frevos clássicos.
Causa e/ou consequência, o “fim” dos frevos, dos sambas de escola e das marchinhas aconteceu quando o axé (Música Pra pular Brasileira) se tornou a trilha sonora do ano inteiro, misturando as estações – ele passou a tocar no carnaval, no São João, no Natal… E de lá pra cá, a coisa só degringolou. Quando a gente pensa que chegou ao fundo do poço, descobre que continua em queda livre. Quem haverá, ainda, de compor ou gravar os ritmos identificados com cada grande festa popular no Brasil? Se o fizer, será para deleite próprio – se é que há algum prazer em fazer música para ninguém.
Hoje, vários estados, inclusive o Rio de Janeiro, tentam retomar a velha tradição do carnaval de rua. Por lá, no Rio, existe até concurso de marchinhas, com dezenas de participantes. Há sempre, é claro, os focos de resistência: Caruaru e Campina Grande, no São João; Recife e Olinda, no carnaval.
E para confirmar o que a intuição já me antecipava, guardo na memória o brilho de puro encantamento nos olhos do meu filho quando ele viu pela primeira vez o carnaval do Recife. Aquele menino estava feliz, ali. Havia descoberto uma beleza que lhe era até então desconhecida.
Perdão, mas eu estava certo: ninguém pode gostar do que não conhece. Desde as brincadeiras de rua – garrafão, queimado, o velho e bom futebol -, até os passos de “bailarino nervoso” ao ritmo quente do frevo, tudo teve o seu tempo e lugar: o mundo que estava guardado além da porta de casa.
Até que um dia decretaram o fim das estações!
TEXTO DO JORNALISTA RICARDO MOTA, PUBLICADO HOJE,6/MAR, NO SITE "TUDO NA HORA"

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