A ALMA PERNAMBUCANA
“Agir no coletivo implica em autoconfiança”.
*MARCIAL LIMA
“Coronel Padilha deu ordem ao cambiteiro: não dá cana a passageiro
nem, também, a morador”. Assim canta o figural do Guerreiro das
Alagoas. “Doutor Jorginho, isso é uma derrota! Uma cana P-O-J se a moça
pedir eu dou”. Assim pontifica Lia de Itamaracá em sua Ciranda. Duas atitudes
aparentemente ingênuas, mas de importante significado. A primeira, obediente:
o dono do engenho, com seu título honorífico, deu uma ordem. Não se discute.
A segunda, já sugere uma tomada de consciência crítica: a condição de
herdeiro, proprietário da gleba, e o título de “doutor”, não lhe protegem da
contraposição. O interdiscurso presente na fala da Lia, com suas implicações
sociais, políticas e ideológicas, faz vislumbrar como as identidades são
historicamente elaboradas.
Esse meu sentimento, expresso, há um ano, na imprensa local, veio-me
à memória ao ler uma opinião publicada no Pois É – Pedro Cabral, sob o título
que ora tomo emprestado para este artigo. “Impressionante como o povo
pernambucano ama sua terra. Qual o estado que usa sua bandeira na camisa,
como faz o povo da terra de Capiba? Todo jovem sabe de cor as letras de seus
compositores”, dizia a nota, arrematando: “Parece que a cultura passa por
essa causalidade de idéias”. Assertiva que entra em plena sintonia com o
pensamento de Lala Doheinzelin, uma estudiosa da cultura como estratégia de
desenvolvimento: “Ao nos apegarmos ao adágio Santo de casa não faz
milagre, estamos evidenciando por onde anda nosso sentido de pertencimento.
A falta de Capital Social se traduz na incapacidade de uma ação integrada,
porquanto, agir no coletivo implica em confiança no outro, atitude que exige
autoconfiança; fruto, por sua vez, da autoestima, ou seja, da valorização que
damos a nós mesmos”.
O que me faz voltar ao artigo de 2009, onde ousei sugerir cinco
características dos pernambucanos: têm a organização social como
patrimônio; mostram-se capazes de efetivar programas de cogestão com o
setor público; valorizam a formação, a exemplo do recente curso sobre
Economia da Cultura; fomentam atividades pertinentes às identidades étnicas;
e a cultura, no âmbito do Governo, tem papel de destaque, estruturador. E tudo
isso resultante de todo um processo de luta, de embate, mas não
necessariamente de ruptura. Não é por acaso que o arco-íris verde, amarelo e
vermelho, que se destaca no centro de sua bandeira, representa a união de
todos pernambucanos.
Em tempo: o vermelho, branco e azul de nosso “lábaro estrelado” falam
dos ideais da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Fomos
buscá-los lá longe, no além-mar!
* MARCIAL LIMA É ATOR, EX-SECRETÁRIO DE CULTURA

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