segunda-feira, 14 de março de 2011

UM TEXTO DE FERNANDA DANNEMANN


Sem memória, Brasil não evolui nem com pré-sal

Sabe por que os judeus não querem se esquecer do Holocausto, e não permitem que o mundo esqueça?
Para que o absurdo não se repita.
Da mesma forma, muitos dos que padeceram nas garras da ditadura, não querem que a história caia no esquecimento.
Faz tão pouco tempo que estávamos todos horrorizados com a tragédia das chuvas na Região Serrana! E agora é o terremoto no Japão que nos horroriza, o dia inteiro, reprisado em detalhes na televisão. Mas já nos esquecemos do Chile e do Haiti, este último, paupérrimo e destruído até hoje, mais de um ano depois da tragédia de então.
Às vezes penso no quanto a tão cantada capacidade de aguentar, suportar e dar a volta por cima, que o brasileiro se vangloria de trazer nas veias, também tem seu lado ruim: a apatia, a aceitação, a incapacidade de indignar-se, a mansidão excessiva diante do horror. E, também, uma boa dose de individualismo, claro, ainda que disfarçado de "alegria natural" ou "persistência para seguir adiante", apesar dos pesares. Principalmente quando os pesares são alheios.
Será tudo isso, simplesmente, uma imagem construída, uma roupa que vestimos, um personagem que engana a todos, inclusive a nós mesmos?
Bem antes que a febre do carnaval contaminasse o país, deixando-o zonzo com tanta farra, bebida, silicones à mostra e recordes de acidentes mortais nas estradas, a tragédia da Região Serrana já havia sido esquecida, assim como o povo que continua lá, sofrendo até agora.
É claro que a gente precisa levantar a cabeça e seguir em frente, quando nos vem a adversidade. A felicidade se constrói assim, afinal.
Mas precisamos também malhar um pouco a memória e a consciência, e não só braços e glúteos. Caso contrário, não vai ter pré-sal que nos tire do Terceiro Mundo, porque ainda que sejamos ricos e famosos, continuaremos com a nossa cabecinha ignorante, fútil e pequena, tão típica de quem não evolui.
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O Abaporu, de Tarsila do Amaral, que mostra a cabeça pequena do povo brasileiro

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