quinta-feira, 10 de março de 2011
ENTREVISTA COM MICHAEL CUNNINGHAM, ESCRITOR, AMERICANO E GAY
O escritor Michael Cunningham tem 58 anos, é um sedutor. Nova-iorquino, fumador, homossexual, está lançando o último livro, "Ao Cair da Noite". Levou três anos a concluí-lo.
No texto "Found in Translation", que publicou no "The New York Times", diz aconselhar os seus alunos a escreverem para os leitores e não para eles próprios. Para quem escreveu "Ao Cair da Noite"?
Escrevo todos os meus romances para as mesmas seis pessoas: o meu namorado, o Kenny; o meu editor, o Jonathan; os meus amigos Stacey, Marie, Adam e Joe. Funciona melhor se pensar que estou a contar esta história a pessoas de quem gosto. Escrevo uma cena e penso, "isto vai provocar a Stacey".
Mas um escritor ambiciona ter mais de seis leitores.
Escrevo também para pessoas mais espertas do que eu.
Sinceramente?
Pelo menos tão espertas como eu. Sou suficientemente esperto. Às vezes leio livros que me parecem condescendentes em relação aos leitores, como se fossem um prenúncio oracular divino para seres menores, os leitores. Penso nos meus leitores como pares.
Porque decidiu abordar o mundo da arte com "Ao Cair da Noite"?
Porque estou fascinado por ele. Hoje, a arte é dinheiro. Muitas das pessoas que compram obras caríssimas não percebem muito de arte. Têm conselheiros que os guiam. É como um mercado de cavalos.
Fez muita pesquisa ou este mundo já fazia parte da sua vida?
Dois dos meus amigos próximos são negociantes de arte. Um deles tem uma galeria e deixou-me andar por lá durante uma semana. Ajudei a montar uma exposição, falei com clientes, houve um dia em que até fingi que trabalhava lá. Ninguém me comprou nada. Tive pena.
Do princípio ao fim, há uma grande tensão neste livro. Porquê?
Porque uma história é sempre sobre pessoas que querem qualquer coisa que não têm, sobre desejo e frustração: Anna Karenina, Emma Bovary, Cinderela. Enquanto contador de histórias sou atraído por situações difíceis. Suspeito das pessoas que são tão felizes quanto poderiam ser. E também as invejo. Mas não são material para romances.
O Peter Harris não é um bocadinho novo para uma crise de meia-idade?
É. Tive de lhe dar 44 anos para a mulher dele poder ter um irmão tão novo como o Mizzy [na casa dos 20]. Ele devia ter 55 anos. Foi manipulação pura dos factos para fazer o triângulo funcionar.
A dada altura, enquanto contempla Mizzy, o Peter pensa "é isso, há ADN gay na família". Existe tal coisa?
Não. A nossa sexualidade é, sim, tremendamente complicada. E muito particular. Os termos, "gay", "bissexual", "heterossexual" quase não fazem sentido. Eu sou gay, mas a minha homossexualidade é muito diferente da do meu amigo Joe. Não penso no Peter como gay. Mas muitas das pessoas que são heterossexuais têm paixões ocasionais por alguém do próprio sexo. Tal como um gay, que pode ter um fraquinho por uma mulher. Não significa que não seja gay.
Quase todos os seus livros têm personagens gay. É um manifesto?
Um escritor que cresceu na Somália escreve sobre crescer na Somália. Enquanto escritor americano branco e gay, faz parte do material que a vida me deu para escrever. Mesmo assim, a maior parte das personagens são heterossexuais.
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