domingo, 13 de março de 2011

ARTIGO DE FRANCINE LIMA - REVISTA ÉPOCA -"QUEM FINANCIA A OBESIDADE?"

Todo mundo tem seu papel na promoção da saúde. Observe quem faz o quê e descubra os verdadeiros valores de cada um
FRANCINE LIMA
Arquivo / Época
Francine Lima 
Repórter de ÉPOCA, escreve às quintas-feiras sobre a busca da boa forma física
A venda de refrigerantes no Brasil em 2010 foi maior do que se esperava. Segundo um relatório do Euromonitor, uma empresa de análises de mercado que atua em 80 países, houve um aumento de 6% no volume de vendas de bebidas carbonatadas no ano passado. Dado importante: o maior motivo para isso foi o sucesso da publicidade das marcas de bebidas durante a Copa do Mundo na África. A associação entre esporte, cerveja e refrigerante continua inabalável.
Diz o relatório que a Coca-Cola, patrocinadora do evento esportivo que mais chama a atenção do brasileiro, investiu pesadamente em campanhas de marketing durante a Copa. Só em 2010, a empresa teria investido R$ 2 bilhões em marketing. O Euromonitor atenta para um viés desse sucesso que não se pode ignorar: “A previsão é que os refrigerantes alcancem uma performance forte entre 2010 e 2015, apesar da imagem pobre em termos de saúde, com sua associação à obesidade infantil.”
Eu assisto a essa realidade da seguinte maneira. De um lado, os cientistas, os órgãos de saúde, os profissionais de saúde e boa parte da mídia se munem de uma tonelada de argumentos e estratégias (de marketing inclusive) para convencer o grande público de que o hábito de consumir refrigerantes e outros alimentos riquíssimos em açúcar (veja que estou falando de hábito: comportamento crônico) conspira contra os ideais de saúde da nossa sociedade, contribuindo para o aumento escandaloso da obesidade e dos gastos públicos com tratamento de doenças que poderiam ser raras se as pessoas ouvissem esse tipo de conselho. De outro lado, os fabricantes desses alimentos riquíssimos em açúcar não abrem mão de investir pesadamente em publicidade para convencer cada vez mais pessoas a continuar consumindo bebidas açucaradas. O Euromonitor já mostrou quem está ganhando a disputa.
O relatório mostra ainda que, além de gastar mais dinheiro com marketing, a Coca-Cola também procurou aumentar seu público em 2010 com duas novas sacadas. Lançou a Coca-Cola Light Plus, que tem adoçante no lugar de açúcar e ainda inclui vitaminas, que é para dar uma cara de bebida saudável. E lançou as garrafas de 200 ml para o público de menor renda. Quem não tem dinheiro para comprar suco compra refrigerante.
O outro aspecto controverso desse mercado é o papel duplo dos eventos esportivos na educação para a saúde. Ao mesmo tempo em que eles põem em evidência as atividades físicas e os poderes que o corpo humano é capaz de desenvolver quando se exercita, os eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos dão grande visibilidade a produtos que não têm compromisso real nenhum com a promoção da saúde.
Acredito que as pesquisas já nos deram motivos suficientes para nos convencer de que a obesidade e o sedentarismo são males que precisam ser combatidos. Quem se preocupa com a saúde – a própria e a do próximo – deveria se importar com o que o resto do mundo está fazendo ou deixando de fazer para combater esses males. Ou vamos perdoar todo tipo de omissão?
Eu convido o leitor que se considere solidário ao combate desses males a vigiar tudo e todos para sacar bem quem está fazendo o quê. O seu prefeito está fazendo alguma coisa ou está dando de ombros? E a escola do seu filho? E o supermercado que você frequenta? E a empresa em que você trabalha? E o canal que você acompanha na TV? E o shopping center onde você faz compras e come com a família? E os amigos que você cultiva? Quem está verdadeiramente preocupado com a saúde das pessoas?
Lembre-se de que o mercado está fazendo sua parte para lucrar sem freios. E que quem fornece o dinheiro que a indústria gasta com marketing é você, que faz as compras. De que lado você está? Quer que a obesidade diminua ou não? Pense nisso, e consuma com responsabilidade. A saúde do planeta está nas mãos de todos nós.
(Francine Lima escreve às quintas-feiras)

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