sexta-feira, 10 de maio de 2013

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA


OCEANOS DE SEGREDOS
RONALD MENDONÇA



Com a nomeação de Guilherme Afif para ocupar o 39º ministério, D. Dilma aproxima-se do cabalístico 40, número que ganhou fama com a novela oriental conhecida  por Ali Babá e os quarenta ladrões. Todos lembram do Afif na época da primeira campanha para presidente,  pós ditadura.  Jovem ainda, pinta de galã de cinema mudo, tinha cara de quem tomava banho com uma frequência aceitável, escovava dentes e , talvez, evitasse constranger a entourage com ruídos e odores intestinais selvagens. Enfim, fisicamente palatável, não parecia arrogante.
Durante algum tempo as pesquisas de opinião mostravam a seu favor um percentual promissor de intenções de voto.  Digamos que tinha um discurso modernoso, conservador, evidentemente valorizando aquelas coisas que “ideólogos”professam detestar: o Estado pouco intervencionista. Naturalmente, como todo e qualquer candidato que se preze, criticava a imoral concentração de riquezas, as diferenças regionais, o abandono da população à própria sorte.  Para ele, o sistema de saúde estava falido. Urgiam medidas que privilegiassem o acesso amplo a consultas e exames. Não era possível, dizia, tolerar que intermináveis filas se formassem para consultas com simples psiquiatras ou pediatras.
A novel Constituição Cidadã (aprovada sob a indignação e apostasia dos petistas), para Afif, precisava tornar-se uma realidade. A Segurança, melhor dizendo, a insegurança, era qualquer coisa de delinquente. Havia uma inflação que derrotara os planos de Funaro/Sarney. Àquela altura, batia a casa de 60-80% ao mês. Denúncias de incríveis safadezas aflorando no coração do poder, leia-se, filhos e genro de Sarney, eram esgotos a céu aberto. A bem da verdade, vivíamos sob a égide do “Deus proverá”.
O fato é que o deputado Guilherme Afif – como todos os outros candidatos – tiravam proveitos do inesgotável manancial de indigências moral e financeira do governo que se encerrava.  Durariapouco a lua de mel de Afif com o eleitorado. Rapidamente, os opositores fariam chegar ao público adesproporção entre o aparente gigantismo do discurso e o nanismo da prática. Irônico, Delfim Netto (hoje, disputando com Nelson Rodrigues o posto de maior guru das esquerdas) fulminaria Afif com uma quase charada: “Um automóvel estaciona vazio na porta da Câmara: é o Afif chegando.”
Corações humanos são oceanos de segredos. Crítico impiedoso do PT e Cia, depois de cavalgar picos e vales verdejantes, atual vice-governador de S. Paulo, certamente o 39ºministro da presidente Dilma irá levar experiências e manhas de político/empresário.  Cientistas políticos, ciganos, cartomantes, psicólogos, historiadores, sociólogos, curiosos e outros palpiteiros, inutilmente, tentam decifrar essa ubiquidade/ambiguidade. 

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