quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BANHO DE MAR À FANTASIA


       A Avenida da Paz se apinhava de gente de toda espécie e classe social no domingo anterior ao carnaval. A partir das 8 da manhã já começavam a chegar as troças, as fantasias, as críticas e os blocos para o grande desfile do Banho de Mar à Fantasia coordenado pela COC - Comissão Organizadora do Carnaval da Prefeitura de Maceió. Nas imediações da Fênix um palanque dava guarida para uma banda tocar músicas de carnaval e o povo na rua, fantasiado ou não, pulava e dançava até mais tarde no maior calor ô..ô...ô...ô...ô...ô. Depois um mergulho, com fantasia no corpo, na água límpida transparente, esverdeada dos mares da Avenida.
         Iniciava o desfile oficial perante o palanque armado com os jurados escolhidos pela COC para entregar a taça de campeão. Primeiramente vinham as críticas e troças com a irreverentíssima turma do Bráulio Leite, Santa Rita, Rubem Camelo, Vadinho, João Moura, Napoleão. Esses não perdoavam governo e governantes. Depois vinham fantasias. Tarzan e sua esposa eram o casal devorador de prêmios, saíam sempre de Tarzan e Jane durante o carnaval, mas no Banho de Mar à Fantasia se fantasiavam como casais famosos: Sansão e Dalila; Marco Antônio e Cleópatra... Fusco, militar da aeronáutica tinha suas tiradas. Certa época o filme do momento era “Amar foi minha ruína”, Fusco saiu de moça grávida, e atrás um cartaz “Amar foi minha ruína”. Lincoln Jobim um especialista, se fantasiava de Seu Fortes, um doido conhecido na cidade que andava com muitos cachorros, Lincoln era um artista, imitava Seu Fortes melhor que o próprio.
      O desfile finalizava com a competição entre os blocos carnavalescos: Vulcão, Bomba Atômica, Pitanguinha vai à Lua, Vou Botar Fora, Cara Dura, Cavaleiro dos Montes, maior disputa. Depois de passar pelo palanque das autoridades e jurados os blocos continuavam arrastando as multidões na avenida, atravessavam a ponte do Salgadinho e perto do coreto entravam na Rua Silvério Jorge 290, onde o general Mário Lima esperava cada bloco com bate-bate de maracujá, cerveja gelada e um bom tira-gosto para os músicos. Tocavam 4 ou 5 frevos, depois seguiam em frente, outro bloco já estava na porta. Minha casa era uma festa, amigos dançavam, faziam o passo na enorme varanda durante o restante da tarde.
        Acompanhávamos os blocos na entrada e saída, uma alegria entre os amigos, figuras das mais conhecidas entravam no embalo, como as badaladas cronistas, Lilian Rose e Maria Cândida, o deputado Guilherme Palmeira, a fina flor do soçaite alagoano, Almir Furtado, Edson Frazão, Marta Mendonça, delegado Aurino Malta, misturavam-se com o povão, era a democracia carnavalesca. Atrás dos blocos mesclava-se engenheiro e servente, médico e enfermeiro, capitão e soldado, filhas de Maria e prostitutas de Jaraguá.  Os blocos terminavam de tocar em minha casa ao entardecer, festa antecipada do carnaval. Namoros feitos, outros desfeitos, a alegria do carnaval tomava conta da juventude.
      Ao pôr-do-sol o povão voltava para suas casas. Cansados, os blocos recolhiam seus estandartes esperando o carnaval chegar.
   Certa vez, no lusco-fusco do anoitecer, Arnaldo, aluno do NPOR, passou todo frajola por mim e Uchoa, dois guerreiros cansados. Ele deu um sorriso de superioridade mostrando sua companheira abraçada pela cintura. Era Guiomar, uma das piniqueiras (assim chamávamos maldosamente as empregadas domésticas) mais disputada, mais paquerada da região. Ele se dirigiu à praia agarrado na cintura fina daquela monumental mulata calipígia e desejada. A inveja é o pior sentimento do mundo. Demos apenas meia-hora. Na calada da noite, a areia fofa da praia absorvendo o barulho, fomos nos achegando em direção onde Arnaldo amava Guiomar. Eles entretidos não perceberam que chegamos bem perto. Ao ver o casal abraçado, rolando na praia, virando-se, lambuzando-se de areia, demos um grito que assustou nosso amigo e a bela Guiomar: “É a Polícia!!!!”. Arnaldo nu, completamente melado de areia, levantou-se gritando incontinente: “Sou tenente do Exército Brasileiro, sou tenente do Exército!!!”. Só percebeu a brincadeira quando demos uma gostosa gargalhada. Nos retiramos, deixamos os dois pombinhos se amarem. Olhando para trás percebi dois vultos entrando no mar, na água calma e morna da Avenida. Num mergulho o casal tirava a areia do corpo, a fantasia natural de “bife à milanesa”, a derradeira do Banho de Mar à Fantasia.
         

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

OPINIÃO DO GUZZZO.

J.R.GUZZO



ESQUERDA QUER “DESTRUIR” O GOVERNO. ISSO É IRRESPONSÁVEL E ANTIDEMOCRÁTICO

Comportamento da esquerda na festa de 40 anos do PT é atentado contra a democracia
Um deputado de um dos partidos de oposição acaba de fazer uma declaração de guerra à democracia no Brasil – aberta, direta e em público. Nem adianta tomar o tempo do leitor dizendo quem é o deputado e qual é o partido; hoje, no Brasil, a maioria dos políticos do arco PT-PSOL-PCdoB e seus clones são uma pasta só, e o que um deles diz ou faz poderia ser dito ou feito por qualquer outro, de modo que tornou-se inútil o esforço para tentar achar diferenças entre eles.
O deputado em questão, na festa dos 40 anos de fundação do PT, afirmou que é preciso “destruir” o atual governo brasileiro. Para não deixar possíveis dúvidas, esclareceu que não basta mais apenas “resistir”, ou “fazer oposição” – é preciso “destruir”, repetiu ele.
Que diabo quer dizer uma coisa dessas? O que, precisamente, o homem está querendo que se faça? “Destruir”, como ele recomenda, significa o que, na prática? Se trabalhar legalmente contra o governo, exercendo as funções de oposição previstas em lei, não é suficiente, o que, então, ele sugere que os opositores de Jair Bolsonaro comecem a fazer?
Destruir, segundo está no dicionário, significa destruir – ou seja, não é nenhuma dessas palavras com meia dúzia de sentidos diferentes. Então: qual é a proposta concreta de mais esse líder da nossa esquerda? Nenhum jornalista vai fazer essas perguntas a ele, é claro, porque fazer essas perguntas seria um comportamento “fascista”. Mas mesmo que aparecesse alguém para lhe perguntar, o deputado ia correr para se esconder debaixo de alguma mesa. Iria dizer que disse, mas não disse o que acham que ele teria dito, e que estamos sob uma ditadura, e que os militares governam o Brasil, e que as prisões estão cheias de opositores – enfim, iria despejar uma mentirada em cima do interlocutor para fugir à responsabilidade de responder pelo que disse.
O Brasil tem um governo legal, eleito em 2018 por 58 milhões de brasileiros, a maioria absoluta do eleitorado que foi votar, em eleições absolutamente livres e cuja apuração não foi contestada em nenhum momento. O presidente Bolsonaro não contou na campanha com nenhuma ajuda do governo – nem um único centavo. Teve menos de 1 minuto de tempo diário no programa eleitoral na televisão e rádio. Não teve jatinhos, nem as verbas de partidos, nem o apoio de milionários, banqueiros, empreiteiras de obras, grandes empresas brasileiras ou multinacionais. Um ex-militante do PSOL tentou assassiná-lo com uma facada no estômago no final da campanha. Bolsonaro foi eleito, simplesmente, porque teve mais votos que o seu oponente. Foi eleito porque essa foi a decisão do povo brasileiro.
Ir contra isso tudo – “é preciso destruir esse governo” – é ir contra o resultado das eleições. É ir contra a democracia, diretamente. É admitir, em público, o problema insolúvel da esquerda brasileira, ou de qualquer outro país: o grande problema da democracia são as eleições, porque numa eleição o outro lado pode ganhar. Para a esquerda, só vale quando ela ganha; quando perde é uma “farsa” que tem de ser “destruída”.
Não há nenhuma justificativa possível para palavras como essa. Elas apenas mostram que a esquerda é abertamente a favor da ditadura no Brasil – a sua ditadura.

BLOCO DO COLARINHO BRANCO


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

OPINIÃO DO BERTOLUCI

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS


O PAÍS DO JOSÉ DE ABREU

Dizem os otimistas que sempre se pode achar um lado positivo em tudo. Neste caso, poderíamos agradecer ao eminente petista e xingador de mulheres José de Abreu por despertar o interesse neste país tão peculiar que é a Nova Zelândia. No texto abaixo, fiz um resumo de um artigo de Maurice McTigue, que foi um dos principais responsáveis pela revolução que o governo da Nova Zelândia operou entre 1984-1990. É bom notar que o texto original é de 2004, então algumas coisas já podem ter mudado. De qualquer forma, é sempre bom ouvir algo de alguém que sabe do que está falando, porque estava lá.
“Reduzindo o governo: lições da Nova Zelândia”
Ao final da década de 1950, a Nova Zelândia tinha a terceira maior renda per capita do mundo. Em 1984, havia caído para o 27º lugar. A taxa de desemprego era de 11,6%, o déficit do governo chegava a 40% do PIB e a dívida pública, 65% do PIB. Os investimentos caiam sem parar, e o governo tentava controlar tudo no país. Havia controle de preços e de salários. Havia controles de importação. Para encomendar uma revista ou jornal do exterior era preciso autorização do Ministério das Finanças. Era proibido investir em ações de empresas estrangeiras. Havia enormes subsídios às indústrias.
O novo governo que assumiu em 1984 identificou três problemas: excesso de gastos, excesso de impostos, excesso de governo. Decidimos reduzir os três. A primeira providência foi mudar completamente a forma de gestão. Fizemos duas perguntas a cada órgão do governo: “O que vocês fazem?” e “O que vocês deveriam fazer?”. Com isso, demos a primeira ordem: “Parem de fazer o que não deveriam”. Em outras palavras, repensamos a real função de cada órgão, eliminamos burocracias inúteis e estabelecemos metas específicas para cada um. As verbas que cada órgão receberia dependeriam do cumprimento das metas; se um órgão não as cumprisse, seria extinto (para que gastar dinheiro em algo que não dá resultado?).
Neste processo, o Ministério dos Transportes passou de 5.600 funcionários para 53. O do Meio Ambiente, de 16.000 para 17. O Ministério das Obras Públicas tinha 28.000 funcionários, e ao final do processo, restou apenas um: o próprio ministro, que era eu. Quem fazia as obras? Empresas privadas. Falei com alguns ex-funcionários do meu ministério que foram para a iniciativa privada, e eles me disseram estar espantados como conseguiam produzir muito mais do que quando trabalhavam no governo.
Descobrimos que o governo fazia muitas coisas que não são função do governo. Por isso, vendemos telecomunicações, companhias aéreas, sistemas de irrigação, serviços de informática, gráficas governamentais, empresas de seguro, bancos, ações, hipotecas, ferrovias, serviços de ônibus, hotéis, empresas de navegação, serviços de assessoramento agrícola, etc. Resultado: quando vendemos estas coisas, sua produtividade subiu e o custo dos seus serviços caiu, traduzindo-se em ganhos importantes para a economia.
Outros órgãos, como o Controle de Tráfego Aéreo, foram transformados em empresas autônomas, proibidas de receber verbas do governo. Estes 35 órgãos custavam aproximadamente um bilhão de dólares por ano. Após a mudança, nunca mais receberam um tostão, passaram a ter lucro e a pagar impostos.
De forma global, o governo foi reduzido a um terço do que era. A participação no PIB caiu de 44% para 27%. A dívida caiu de 63% para 17% do PIB. Quando o dinheiro começou a sobrar, reduzimos drasticamente os impostos.
Tínhamos um sistema tributário complexo, onde o governo parecia se empenhar em cobrar impostos de tudo que pudesse. Decidimos simplificar ao máximo, mantendo apenas dois impostos: O imposto sobre consumo, com taxa fixa de 10%, e o imposto de renda, onde a alíquota mais baixa caiu de 38% para 19% e a mais alta, de 66% para 33%. Todos os outros impostos (ganhos de capital, imóveis, etc) foram eliminados.
Mesmo com a redução das aliquotas, a arrecadação total aumentou. Com taxas baixas, não vale a pena pagar contadores e advogados para encontrar brechas na lei. Aliás, a história mostra que todos os países que simplificaram e reduziram as taxas de seus impostos acabaram arrecadando mais, não menos.
Em 1984, metade da renda dos criadores de ovelha vinha do governo. Um cordeiro rendia aproximadamente US$ 12,50 por cabeça quando exportado, mas o criador recebia mais US$12,00 em subsídios do governo. Quando cortamos os subsídios, os criadores não ficaram nada satisfeitos, mas quando viram que o governo não ia mudar de opinião, resolveram se virar. Contrataram consultores e pesquisaram como aumentar o valor de seus produtos. Concluíram que era necessário produzir algo inteiramente diferente, processá-lo de uma maneira diferente e vendê-lo em diferentes mercados. Em 1989, a renda chegou a US$ 30,00 por cordeiro. Em 1991, US$ 42,00. Em 1994, US$ 74,00. Em 1999, um cordeiro rendia US$ 115,00.
Quando abolimos os subsídios, muitos previram que as indústrias iam quebrar e haveria enorme desemprego. Não aconteceu. Também previram que as grandes corporações iriam dominar o mercado e arruinar os pequenos produtores. Ocorreu o contrário: a agropecuária familiar se expandiu, provavelmente porque uma empresa pequena e familiar é mais ágil em tomar decisões e tem custos menores que as empresas grandes.
A educação era outro fracasso. A taxa de repetência chegava a um terço dos alunos. O governo jogava cada vez mais dinheiro na educação, e os resultados não paravam de piorar. Contratamos consultores estrangeiros para analisar nossos problemas. Uma das primeiras descobertas foi que, de cada dólar gasto na educação, setenta centavos iam para a administração do sistema. Após esta descoberta, o Ministério da Educação foi simplesmente extinto.
Cada escola, pública ou privada, receberia um pagamento do governo para cada aluno matriculado. Cada escola pública seria administrada apenas por um conselho eleito pelos pais das crianças matriculadas nela, sem qualquer interferência do governo, e os pais tinham total liberdade para matricular seus filhos na escola que quisessem. Se uma escola pública perdesse alunos, sua receita iria cair e os professores perderiam o emprego. O resultado foi que não houve êxodo para as escolas privadas, como alguns temiam, e em dois anos a diferença de desempenho entre as escolas do estado e as particulares era zero.
Para completar, criamos grupos, formados pelos melhores especialistas de cada área, para reescrever todas as leis. Dissemos a eles para recomeçar do zero, ignorando tudo que havia antes, fazendo algo simples e que criasse o melhor ambiente possível para a economia prosperar. Para dar um exemplo, as leis ambientais do país formavam uma pilha de papel de mais de 60 cm de altura. Foi substituída pela nova Lei de Gestão de Recursos que tem 348 páginas. As novas leis removeram o poder dos órgãos do governo de criar novas regulamentações, que é o que fazia as leis crescerem sem controle.
Para encerrar, uma pequena história: O Ministério dos Transportes um dia disse que precisava aumentar a taxa para renovação da carteira de motorista. Eu perguntei por que a carteira precisa ser renovada. A princípio, eles reagiram como se eu tivesse feito uma pergunta muito idiota. Eu insisti: em quê a renovação da carteira garante a competência para dirigir?
Depois de dez dias, eles admitiram que não conseguiram encontrar uma boa razão para o que estavam fazendo; por isso, extinguimos o processo. Agora, a carteira é válida até a pessoa chegar aos 75 anos. A partir desta idade, ela deve fazer um exame médico anual para garantir que ainda tem condições físicas para dirigir. É isso que eu quero dizer quando falo “pensar de forma diferente sobre o governo”.
* * *
Se alguém se interessar em ler o artigo original, basta clicar aqui

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SÃO TRINTA COPOS DE CHOPE...



                                     
 Juçara quando aparecia de biquíni na praia, os homens encantavam-se. Alegre, liderava a turma jovem em noites frescas nos bancos da Avenida da Paz. Naquela época o ensino público era eficiente, ela passou no vestibular de medicina. Porfírio, colega de faculdade, tornou-se o amigo inseparável. Depois da praia, gostavam de conversar e tomar cerveja no Castelinho, bar instalado no coreto da Avenida. Na primeira cerveja, eles brindavam, batendo os copos, recitando um poema de Carlos Pena Filho.
     “São trinta copos de chope... São trinta homens sentados... Trezentos desejos presos... Trinta mil sonhos frustrados... ”
Quando foi realizado um Congresso de Plantadores de Cana em Maceió. Juçara trabalhou como recepcionista. Todas as noites um senhor visitava o estande. Encantou-se com aquela jovem meiga, inteligente e alegre. Esse senhor, fazendeiro em Minas Gerais, separado da mulher, era rico e solitário. Juçara até que simpatizou com o mineiro que lhe prometeu o Céu, a Terra e o Mar se ela o quisesse. O homem apaixonou-se. Dias depois do Congresso ele retornou a Maceió, procurou Juçara. Conheceu os pais, queria casamento. Foi um reboliço na família. Um rico fazendeiro de 40 anos, apaixonado e louco para casar com aquela menina de 18 aninhos, iniciando o curso de Medicina.
Juçara, embora achasse o pretendente inteligente, não tinha amor suficiente para casamento. Outro problema era a faculdade, pois iria morar em uma fazenda no interior. Ela pediu tempo para pensar. Júlio, o fazendeiro apaixonado, deu o tempo que quisesse, ele esperaria por toda vida, seu amor era infinito e paciente.
Quando Porfírio soube que Juçara aceitara o casamento, levou um choque. Foi como se um feixe de flechas tivesse lhe atravessado o tórax, o coração.
Na véspera da viagem, encontraram-se na boca da noite no Castelinho.  Juçara estava deslumbrante em um vestido amarelo, quase transparente.  Emocionados brindaram à felicidade da noiva. Bateram os copos, recitaram o poema predileto. Quando olharam nos olhos, os dois marearam. A primeira lágrima caiu dos olhos de Porfírio e outras mais caíram, abraçaram-se juntos à mesa. Porfírio não se conteve, sussurrou no ouvido da doce amada: “Lhe amo, lhe amo, lhe amo e nunca lhe esquecerei...”
Juçara, segurando as emoções, confessou a verdade: estava casando por necessidade, o pai tinha câncer, o tratamento para poder sobreviver cinco ou dez anos, era caríssimo. Ele era sua própria vida, daí esse sacrifício. Pediu perdão a seu amado, dizendo que também jamais o esqueceria, e que lhe ajudasse nessa difícil decisão. Não sabia se certa ou errada. Seu pai, que não imaginava a história verdadeira, deu sua vida batalhando por ela, merecia essa loucura pragmática.
Certo momento, Juçara pediu para passear pelo calçadão da Avenida. De mãos dadas, feitos dois namorados, seguiram mudos, pensativos. O céu estava negro, escuro, um milhão de cintilantes estrelas. Em certo momento pararam. Impulsionados pelo amor e os hormônios, desceram à praia. Ao chegarem à areia morna, olharam-se, abraçaram-se. Ele beijou e lambeu o longo pescoço da amada, enquanto ela sussurrava seus ais e num grito abafado pediu: “Quero você, quero você, me possua...”

Anos se passaram, Porfírio pouco viu Juçara quando ela passava alguns dias em Maceió. Só aproximou-se uma vez para dar os pêsames no enterro de seu pai.
Durante o carnaval passado, Porfírio, coroa enxuto e alegre, bom folião, brincava entre amigas no Bloco da Nêga Fulô, de repente tomou maior susto ao deparar-se com uma mulher exuberante que dançava e pulava à sua frente. Era Juçara no esplendor de sua maturidade, pulando e cantando as marchinhas de carnavais antigos. Brincaram juntos, felizes da vida, terminaram a noite embriagados se enrolando na praia de Ponta Verde. Marcaram encontro no outro dia no Bar do Alípio às cinco da tarde.
Porfírio, o viúvo mais paquerado da cidade, no dia seguinte às 10 para cinco ele estava sentado no deck da Lagoa Mundaú, esperando a amada. Juçara desceu de um táxi com elegância e beleza, tinha no corpo colado o mesmo velho vestido amarelo de anos atrás, havia guardado e nunca usado. Aproximou-se sorrindo, deu um beijo em sua face, sentou-se a seu lado. Porfírio controlou a emoção, reconheceu o vestido. Juçara desabafou pela primeira vez na vida. Contou o sofrimento que teve com o marido mineiro, bem mais velho, extremamente ciumento, mesquinho, raparigueiro, “qualidades” que só apareceram depois do casamento. Proibiu-a de ir à cidade sem sua companhia, nem sequer para assistir um cinema. Tem dois filhos, sua felicidade, seu amparo para aguentar aquele homem violento, que às vezes bêbado dava-lhe murros e tapas, ainda acusando-a não ser virgem quando casaram-se, como se fosse um crime. Há seis meses teve coragem saiu de casa, separou-se do velho marido, mora em Belo Horizonte e quer voltar a estudar medicina.
O reflexo dourado da Lagoa Mundaú era um espetáculo de brilho e cores cintilantes tremeluzindo a água calma, cortada por canoas de velas brancas.
Quando o Sol começava a se esconder, a baixar lá para o fim do mundo para a noite chegar; aconteceu um beijo, terno, carinhoso, como se fossem velhos amantes. O garçom encheu os copos de cerveja, eles sorriram felizes, brindaram, recitando alto: “São trinta copos de chope... São trinta homens sentados... Trezentos desejos presos... Trinta mil sonhos frustrados...”
   

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

BLOCO DA NÊGA FULÔ VAI DESFILAR EM 2020 NO DOMINGO 23 DE FEVEREIRO ÁS 15 HORAS


OPINIÃO DO GUZZO

J.R.GUZZO


QUEREM CASSAR OS DIREITOS DE REGINA DUARTE. É MUITO MAIS QUE ÓDIO

Para além de toda a gritaria indignada de uma parte da classe artística brasileira, à beira de um ataque histérico com a nomeação de Regina Duarte para a Secretaria Especial de Cultura, há um fato indiscutível e chocante: os colegas de profissão da atriz estão negando a ela o exercício livre de seus direitos civis. É algo realmente extraordinário.
Mais de 60 anos após as lutas de Martin Luther King, que mudaram os Estados Unidos para sempre ao provar para a sociedade americana e para o resto do mundo que todos os cidadãos de um país têm direitos naturais que não podem ser negados por ninguém e por nenhum motivo, estamos de volta, no Brasil de 2020, ao Alabama de 1960.
A “classe artística brasileira”, ou mais exatamente os que fazem barulho na mídia, está dizendo que Regina Duarte não pode exercer o seu direito constitucional de aceitar um convite para o ministério do governo Jair Bolsonaro.
Assim como um negro americano não podia ocupar cargos públicos pelo fato de ser negro, Regina Duarte não pode ser ministra pelo fato de ser atriz – e atrizes, na visão das nossas classes “intelectuais”, não podem trabalhar  num governo de direita, porque não têm o direito, garantido por lei, de ser de direita. Regina é de direita? Muito bem: e o que resto do mundo tem a ver com isso? A Constituição do Brasil diz que ela tem o direito de pensar o que lhe der na telha.
Nenhum dos indignados com a nomeação de Regina Duarte se lembrou de levar em conta que o governo de Jair Bolsonaro é legal, legítimo e constitucional. Foi eleito democraticamente, dentro de todas as regras em vigor, em eleições livres, por quase 58 milhões de votos – a maioria absoluta, de longe, dos que votaram na eleição presidencial de 2018.
O que há de errado em aceitar um convite para trabalhar nesse governo? Se você é contra o governo, vá adiante e seja contra; mas você não pode negar ao cidadão que está ao seu lado o direito de ser a favor. Ao agir como agiu no caso de Regina Duarte, a “categoria artística” mostrou que não aceita, simplesmente, as regras de uma democracia. Não há remédio conhecido para isso: quem não aceita as regras da democracia é a favor de ditaduras. O resto é argumentação hipócrita e falsificada.
Se Regina Duarte vai ou não dar certo como secretária da Cultura já são outros quinhentos. A impressão, pelos fatos disponíveis hoje, é que isso é uma missão impossível. Talvez possa se demostrar que não, que a missão seja possível – mas, nesse caso, será preciso fazer a demonstração concreta.
É, mais ou menos, como nomear um cidadão para o Ministério dos Discos Voadores – que raios um filho de Deus (uma filha, no caso), pode fazer de útil num cargo desses? O Brasil não precisa de uma Secretaria, de um Ministério da Cultura. Precisa de cultura – que não apenas é outra coisa, mas é algo que a intervenção do governo ativamente atrapalha.
O Brasil precisa de um serviço capaz de tapar goteiras, instalar ar condicionado e evitar incêndios em seus museus, bibliotecas e milhares de instalações dedicadas à cultura e entregues ao mais miserável abandono. Precisa impedir que suas construções históricas venham abaixo. Precisa salvar as estátuas expostas em praça pública. Precisa de todas essas coisas que você sabe tão bem quais são – e nenhuma delas tem nada a ver com a Secretaria Especial de Cultura.
Mas não é isso que se discute. O que se quer é cassar, em público, os direitos de uma cidadã brasileira livre. É muito mais que ódio, apenas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

IOTI


CHARGE ON LINE


OPINIÃO DE RENAN SANTOS



A REVOLTA DO LEBLON

Renan Santos
“Eu sei o que fizemos na sua casa, na Barra da Tijuca” , disse um irado Zé de Abreu em seu twitter. “Vou-lhe desmascarar”, arrematou. O ator e militante global referia-se a sua ex-amiga Regina Duarte, agora Secretária de Cultura do regime fascista de Jair Bolsonaro. Em sua mente transloucada, expor uma colega, em nome do combate ao fascismo, é mais que demonstração pública de virtude: é uma necessidade.
Zé de Abreu é a vítima mais aparente de uma endemia que assola a classe artística brasileira — a carioca em especial —, nestes estranhos tempos de política em redes sociais. É o elitismo arrogante de uma nobreza decadente, enfermidade mais letal — porém menos infecciosa — que o coronavírus que se espalha pela Ásia. E dele, infelizmente, não temos como fugir.
Marcelo D2, cantor pop, já havia “dado uma das suas” ao propor uma simpática inscrição de suásticas — à faca — na testa de direitistas liberais. Esse não parece ter cura. Foi ovacionado no twitter, sem objeções, por jovens influencers que lhe tem como herói na luta por algo que não sabem descrever. Mas casos como o seu não são tão frequentes.
Os sintomas da empáfia decadente costumam ser mais blasé. Um bom vídeo de protesto organizado por Paula Lavigne, filmado diretamente do Leblon, é uma técnica mais comum. Globais fazem rosto de reprovação, texto em off comendo solto, pianinho nojento mandando a trilha sonora: quem nunca apreciou?
Temos também modalidades menos pirotécnicas como notas públicas, abaixo assinados, fotos-protesto no Instagram (para as gerações mais novas) e convescotes regados a vinho no apartamento de alguma celebridade. Tudo vazado para a imprensa — como tem que ser — com ares de espontaneidade e,  por que não?, estilo e brejeirice.
O desespero com que essa classe encarou a chegada de uma das suas, Regina Duarte, a um governo considerado inadequado dá o tom de uma melancólica queda que ainda não conseguem aceitar. Não apenas uma queda em audiência, faturamento e relevância, mas também da corte ensolarada que até ontem era ovacionada nas ruas e praças. Morreu seu estilo de vida.
A nobreza artística carioca nunca encontrou paralelo. Vivendo em seu mundo particular, rodeando a Rede Globo, ela era, antes de tudo, uma turma de amigos, um clube fechado e exclusivo. Recebiam altos salários, conviviam nos mesmos bares, praias e restaurantes. Tinham seus líderes, suas tribos, seus rituais. Eram felizes — amados pelo povo —, e nada poderia lhes fazer mal.
Construíram, desde os tempos da ditadura, uma perspectiva muito particular de Brasil — profundamente carioca —, que se refletia nas temáticas das telenovelas e em suas leituras sobre o que eram as prioridades do país. Não viam que em meio às suas elocubrações sobre “o morro e o asfalto” havia um povo, complexo, que não se resumia à antiga capital imperial.
Como nobreza, souberam servir ao seu rei. Foi nos tempos de Lula presidente que sorveram o néctar das leis de incentivo — devidamente mediadas por Paula Lavigne, mecenas do dinheiro público. Viram também seu sonho elitista de Brasil se desfraldar na forma de “políticas públicas” — ou propaganda que acalentava seus peitos. Percebiam, na realidade, a projeção de seus delírios de Chardonnay. Tempos dourados que precederam a queda.
As jornadas de 2013 serviram de prenúncio para uma revolução que lhes apeou do poder. Em 2016 caiu não apenas Dilma, mas o mundo das artes que lhe servia de suporte. Percebam: foi no ano seguinte, 2017, que a chamada “guerra cultural” atingiu seu ápice. Ali surgiu o “342 artes” e as iniciativas políticas mais agressivas da nobreza decadente. Em resumo, propunham brioches após a queda da bastilha. Ainda propõem. Mal sabiam que o povo — ou público, como preferem — já vivia do pão que o diabo amassou.
Derrotados em 2018, adentraram no debate com uma perspectiva muito particular: a de que o estrangulamento de verbas para suas iniciativas era uma “sabotagem à arte”. É notável que teçam, enquanto nobreza, uma natural titularidade sobre verbas ligadas ao setor. Era fato dado, expressão de Estado de uma configuração social que julgavam imutável.
Sejamos sinceros: escandaliza-os mais a ausência de dinheiro do que o nazismo de botequim de Ricardo Alvim. Arte, pra eles, é quintal de casa com despensa cheia. A festa que não pode acabar.
O chororô e a deselegância com que atacam Regina Duarte — incluo aí Carolina Ferraz — nos mostra que a nobreza do Leblon não cairá sem luta. Haverá indiretas, sabotagens e muito apartamento lotado em saraus antifascistas. A resistência promete. Ao final da festa, regressarão para suas casas, eufóricos, para tomar um revigorante banho de coliformes fecais enquanto maquinam soluções para problemas que jamais ousaram viver.
Involuntariamente — ou ironicamente — estarão produzindo arte da melhor qualidade.

OPINIÃO DO PUGGINA

PERCIVAL PUGGINA


A MINISTRA DAMARES E A TURMA DO KAKAY

A frase de Kakay, advogado dos corruptos endinheirados, que desfila de bermudas no STF, é testemunho eloquente de um tipo de personalidade que coloniza a atual oposição brasileira. Segundo nota publicada na coluna Radar, da Veja, Kakay escreveu o seguinte sobre Damares Alves para um grupo de juristas no WhatsApp: “Foi uma pena os pais desta idiota não terem feito o que ela prega. Se não tivessem trepado, estaríamos livres dela”. Não satisfeito com a repercussão da grosseria e o vocabulário chulo, o advogado ocupou espaço no Estadão digital com um artigo em que tenta, de modo patético e inútil, bater palmas para si mesmo. Não teve boa parceria pelo que vê nos comentários ao texto.
Parcela significativa da oposição brasileira, no entanto, ainda não entendeu o resultado da eleição de 2018. Instituíram para seu uso pessoal, como nécessaire, conceitos empacotados segundo os quais o país foi tomado por alguns homens e mulheres intrinsecamente perversos, com ideias conservadoras e liberais. É como se dissessem: “Querem recompor tudo que lutamos para desconstruir – família, ordem, religião, virtudes, amor à pátria. Acreditam que direitos e deveres andam juntos e que liberdade impõe um vínculo sólido com responsabilidade”. E deduzem: “Essa gente não presta!”. Kakay talvez complementasse esse despautério com elegância lacradora: “Melhor seria se os pais dos conservadores não tivessem trepado e eles não tivessem nascido”.
No entanto, a “idiota” assim qualificada por ele é, logo após Sérgio Moro (aguenta Kakay) o segundo nome mais prestigiado junto à opinião pública no conjunto dos ministros e representa, em muitos aspectos, o discurso vencedor das eleições de 2018. Bolsonaro foi eleito, principalmente, porque segurou a bandeira do discurso conservador, que ressoou na alma de milhões de eleitores de muitos bons professores, de muitos pais conscientes do efeito tóxico da permissividade transformada em sinônimo geneticamente defeituoso de liberdade.
A Dra. Damares, que lança hoje, às 16 horas, junto com o ministro da Saúde a Campanha de Prevenção à Gravidez na Adolescência, tem maior conhecimento e experiência nos temas em que atua do que o inteiro colegiado de seus críticos. A má vontade deles espelha a maldade de seu querer, que torna opaco o que é cristalino. E como é cristalino o que ela tem dito sobre o tema da gravidez precoce! Qual mãe, qual pai ficará aborrecido se seus filhos, em adição ao que ouvem em casa, forem levados a refletir sobre as consequências e responsabilidades inerentes à atividade sexual? Qual mãe, qual pai ficará tranquilo ao saber que a filha de 12 ou 13 anos, sob pressão psicológica própria ou externa, está deitando com um adolescente imberbe? Que embaraço matemático existe em compreender a relação de causa e efeito entre menos “trepadas” precoces e menos gravidezes?
Isso nada tem a ver com cultura medieval, com colocar Rapunzel na torre da bruxa, nem com cinto de castidade. E tem tudo a ver com zelo, prudência, responsabilidade e saúde pública.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

OPINIÃO DE DOM HÉLDER CÂMARA


OPINIÃO DO CARVALHOSA

FINALMENTE, A ALTERNÂNCIA DE PODER NO BRASIL

Modesto Carvalhosa
Em meio a tantas barbaridades praticadas contra a sociedade brasileira pelo Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, em harmoniosa união para destruir instituições e pessoas que combatem a corrupção no país, esquecemos de um fato histórico, único, que ocorreu nas eleições de 2018: a alternância do poder político pela primeira vez na República brasileira.
Nos vários períodos em que tivemos ora democracia, ora ditadura, desde a República Velha até os dias atuais – e lá se vão 130 anos –, as oligarquias sempre se compuseram e estiveram unidas para dominar as instituições e repartir entre si o poder, suas benesses e seus privilégios.
Para não ir longe, basta observar os sucessivos governos desde a redemocratização em 1985. Sempre os mesmos grupelhos, representados por nossos execráveis “partidos políticos”, partilhando e se refestelando em benefícios, estatais, cargos de confiança (aos milhares), ministérios (às dezenas), verbas orçamentárias fabulosas e assim por diante. Do Centrão fisiológico à esquerda “revolucionária”, o objetivo era expropriar o que fosse possível dos cofres públicos, dividindo o mando deste fazendão chamado Brasil.
O distanciamento entre a sociedade civil e os intocáveis bandos no poder foi dramaticamente expandido durante os governos petistas, que aparelharam o Estado para a prática sistemática de crimes contra o erário. Esse sórdido mecanismo foi denunciado e escancarado pela Operação Lava Jato, com endosso entusiasmado do povo. E o apoio popular ao combate à corrupção se traduziu, nas eleições de 2018, na rejeição ao modus operandi da velha política e na demanda por um novo governo, que se libertasse dos métodos de loteamento do poder.
Aí que se deu a alternância!
Pela primeira vez, ministros não são indicados por caciques políticos e cargos de confiança não são entregues aos seus rapinadores apaniguados. Não há mais uma “maioria” parlamentar comprada (a peso de ouro, com dinheiro público) para sustentação fisiológica do Governo. É por isso que as velhas raposas, agora afastadas do comando central, reagem para restaurar antigos e maus hábitos – que nos levaram a ser um país atrasado e inóspito para milhões de cidadãos torturados pela pobreza crônica e endêmica.
Nada mais auspicioso e bem-vindo que a alternância de poder, um primeiro passo democrático rumo a um Brasil mais próspero e civilizado.

SPONHOLZ -


HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA


                                       O PRESENTE DE LUZIA



Pedrinho chegou na puberdade, muito hormônio, a libido aperreando, sexo despertando, entretanto, suas duas paixões ainda eram: velejar e nadar. Morava perto do Iate Clube Pajussara onde guardava o barco, desde cedo aprendeu o manejo das velas, campeão juvenil de snipe. Descia o barco da garagem, sozinho, velejava pela enseada, bordejava, virava, encantava-se com o mar verde esmeralda, às vezes azul turquesa.
      Todo dia acordava cedo, vestia o calção de banho, atravessava a rua, corria em direção ao mar, mergulhava na água tranquila, pequenas marolas, nadava rumo ao infinito, de repente retornava, às vezes acompanhado de botos ao lado como se fossem batedores protegendo o jovem nadador. Depois do mergulho matinal, Pedrinho tomava um bom café, colocava os livros na pasta, pegava bonde ou ônibus rumo ao Colégio Diocesano.
                 Pela tarde, descansava do almoço, estudava as matérias do dia, depois caía no mundo, jogar futebol na praia, ximbra, botão, muitos amigos, juventude livre e solta na praia de Pajuçara.
          Certa tarde, Pedrinho foi guardar seus livros na puxada do quintal junto ao quarto de empregada. Teve vontade de ir ao banheiro entrou no quarto ao abrir a porta, tomou um susto ao ver Luzia, a copeira, nuinha como veio ao mundo, entrando no chuveiro, deu-lhe uma paralisia ao olhar a bela mulher completamente nua, precisou algum tempo para sair do banheiro. Emocionado retornou à puxada fazer os deveres de casa, em sua cabeça, em seus pensamentos, na sua libido estava forte a imagem do corpo de Luzia. Sertaneja, 27 anos, abandonada pelo marido, trabalhava em casa de família para poder sustentar o filho, morava com os avós em Dois Riachos.
             Pedrinho saiu do delírio erótico quando Luzia falou quase cochichando: "pode ir, já acabei", deu um sorriso entre maroto e sem vergonha.  Na tarde seguinte Pedrinho traçava uma doce pinha na varanda do quintal, Luzia se achegou provocando, "Vá guardar seus livros, vou tomar banho, pode olhar, mas só olhar, está ouvindo?" O jovem ficou excitadíssimo, esperou Luzia entrar no quartinho, apanhou seus livros, dirigiu-se ao quintal, olhava para os lados, desconfiado, como quem pratica um mal feito, seu coração aos pulos, chegou perto da porta, abriu, ficou encantado, o sangue ferveu nas veias ao ver Luzia embaixo do chuveiro se esfregando. Pedrinho retornou ao seu quarto, sua mente via apenas Luzia esfregando coxas e nádegas com sabugo de milho. Homenageou ao Deus Onã.
         Os banhos de Luzia ficou como segredo entre os dois, toda tarde havia essa liturgia erótica no quintal. Passaram mais de três semanas nesse ritual, Pedrinho não suportou o segredo, se gabando contou a Juvêncio, seu melhor amigo, o que estava acontecendo às tardes no quintal. Juvêncio, queria também ver mulher nua, sob recusa, chantageou, ameaçou espalhar para outros amigos. Na tarde seguinte, Luzia tomou um susto ao ver os dois jovens abrirem a porta do quartinho, toda ensaboada, gritou, "feche a porta.". Ela não gostou, a partir desse dia trancava a porta à chave para tomar banho. Uma tristeza para o adolescente, Pedrinho "ficou de mal" do amigo Juvêncio, dois meses. A imagem de Luzia alimentava os sonhos, as fantasias de Pedrinho, ele a olhava com ar de pidão, ela sorria matreiro, mas não mais permitiu se ver tomando banho.
No dia do aniversário de Pedrinho, sua mãe caprichou num bolo de velas, convidou os amigos, saiu cervejinha, cuba libre, dançaram ao som de Ray Conniff.  Final da festa, hora de dormir, ao partir para o quarto, Pedrinho esbarrou-se com Luzia limpando a sala, ela sorriu oferecida e falou baixinho: "amanhã vou lhe dar meu presente, me espere às oito horas da noite na praia por trás dos sete coqueiros."
No dia seguinte não saía da cabeça o encontro marcado com Luzia. Faltavam 15 minutos para oito horas Pedrinho já estava sentado na areia branca. O céu estrelado brilhava na escuridão da lua nova, viu os minutos passarem, ansioso. Eram mais de oito e meia quando ouviu um psiu, sentiu um abraço por trás. Luzia deitou-o na areia, cochichou no ouvido, "é meu presente de aniversário."