domingo, 20 de março de 2011

JB ONLINE - DIA 20 DE MARÇO NA HISTÓRIA

20 de março de 1989 - Brasil perde o talento de Dina Sfat

A morte de Dina Sfat. Jornal do Brasil: Terça-feira, 21 de março de 1989.

"Era um rosto com que os brasileiros se acostumaram a conviver, nos últimos vinte anos, mas Dina Sfat era também algo mais - uma das pioneiras de uma família de atores ou atrizes cujas preocupações vão bem além dos limites do palco ou do estúdio. Hoje a família cresceu tanto que até se banalizou - e mais original será o artista que não fale de política nem mostre alguma espécie de militância do que o contrário. Dina Sfat, que morreu de câncer, no Rio, aos 50 anos, tem a distinguí-la o fato de ter começado antes - e de exercer de maneira tão visceral os papéis de cobradora de justiça e fiscal da cidadania. Dina foi uma provocadora, e era evidente que se deliciava com isso, na vida real como no melhor de sua ficção - a liberada guerrilheira Ci, do filme Macunaíma, por exemplo, ou o personagem que vestia terno e fumava charuto da peça O Rei da Vela. Mas talvez nunca tenha sido tão Dina Sfat quanto num momento fugaz - aquele em que, num programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, declarou ao general Dilermando Gomes Monteiro que tinha medo de generais. Muitos brasileiros também tinham, e naquele momento encontraram sua intérprete.Outros não sabiam que tinham, e então se deram conta disso. Sem ensaiar nem consultar um script, Dina produziu uma frase que flagrava o regime militar em uma de suas maiores perversidades, e até hoje ajuda a compreender porque ele não podia continuar". Jornal do Brasil


Três anos após descobrir-se portadora de um nódulo no seio direito, Dina Sfat, 50 anos, morreu de câncer numa manhã de segunda-feira. Estava na companhia das três filhas do casamento com o ator Paulo José e de amigos mais próximos quando deitada, virou-se para o lado, suspirou e dormiu para sempre.

A atriz que, aos 50 anos, não sabia dizer exatamente quem era, pela multiplicidade de pessoas possíveis de ser, foi em síntese uma legenda dos anos 60, dos anos 70 e até dos anos 80. A garota classe média judia de São Paulo, que não estreou em 1955 no Teatro Paulista do Estudante com Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho por tremer de medo, atravessou, como protagonista, movimentos artísticos e políticos dos últimos 30 anos de sua vida. A jovem Dina Kutner escolheu o nome da cidade onde nasceu sua mãe, Sfat em Israel, para estrear em Os fuzis da Senhora Carrar, de Bretch, no Teatro de Engenharia Mackenzie, em São Paulo. Era o início de uma carreira vitoriosa com uma coleção de impecáveis interpretações no teatro, no cinema e na televisão.

A mulher que se considerava desequilibrada, oscilante entre a euforia e a depressão, ainda contou sua história no livro Palmas pra que te quero: "Não sou apenas uma mulher corajosa e batalhadora. Também vacilo, também peço colo. Sei que essa imagem de guerreira está ligada ao fato de eu ter aprendido a dar conta do meu recado desde muito jovem. Sem heroísmo. Posso tremer, mas não fujo de situações que tenho que enfrentar, mesmo que eu não as entenda".

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