terça-feira, 21 de abril de 2015

TEXTO DE ALOÍSIO ALVES - GAZETA DE ALAGOAS

O MATADOR DE BEIJA-FLORES
Por: » ALOÍSIO ALVES – publicitário.
Numa pequenina cidade  do interior, nos anos cinquenta, o irrequieto menino, quando não estava na escola, ficava o tempo todo de tocaia no quintal de casa esperando chegar o beija-flor para sugar o néctar do interior das flores do jardim de sua mãe. O peralta, apesar da idade, oito anos, não mais que isso, tinha uma mira certeira ao disparar a pedrada mortal da sua atiradeira. Sonhava um dia ser igual ao tio caçador, contador de histórias mentirosas que escutava em silêncio. Desejava ganhar uma espingarda, perder-se nas matas, subir e descer serras para caçar bichos grandes. Enquanto isso, dezenas daqueles frágeis e coloridos beija-flores foram por ele abatidos. Seus pais também cultivavam fruteiras como goiabeiras e graviolas, típicas da região, alimento preferido de algumas espécies de pássaros. Sanhaço, galo-de-campina, canário-da-terra e bem-te-vi, comuns no calor do Sertão. O pequenino beija-flor, porém, era o seu troféu! O caçadorzinho atrevido só não contava com a dura rejeição da senhora sua mãe, mulher de pouca leitura, mas que tinha um profundo sentimento de preservação da natureza. Por mais que insistisse, ela nunca colocou na frigideira qualquer que fosse o passarinho para ele comer, resultado da sua pontaria. E lhe dava ríspidas lições de moral dizendo que aquilo não era coisa que se fizesse. Os pássaros são criaturas de Deus! As avezinhas, assim como os humanos, têm o direito de viver em liberdade, comendo, cantando, pondo seus ovinhos, reproduzindo e alimentando os filhotes. Não devem morrer de morte matada ou ficar engaioladas longe do seu mundo que são as árvores, os córregos e os campos. A liberdade das aves está em voar, poder encher o peito e expressar o seu canto para a floresta escutar. Assim como os pássaros, os homens não podem ser caçados no seu direito de expressão, nem tolhidos de viver com dignidade. Educação e saúde, trabalho e segurança fazem uma sociedade livre e feliz. Não basta aumentar a renda se os hospitais são chiqueiros e nas escolas as crianças não sugam o néctar da esperança de um futuro cidadão. O menino matador de beija-flores recebeu de sua humilde mãe, ensinamentos de vida que certamente nunca esqueceu. Lições que a educação pública não oferece ao país, menos ainda aos filhos do Bolsa Família do Brasil.

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