DOIS
AMORES
- "Que
decepção Leonardo! Você é boiola! Nunca imaginei, estou traumatizada, não
consigo acreditar no que vi, com meus olhos!"
Resmungou Raimunda,
irada, chorando diante do marido, os dois sentados à mesa da sala de seu
apartamento, Leonardo cabisbaixo, cotovelos à mesa, mãos aparando o rosto,
lágrimas caíam, só conseguiu dizer.
- "Eu lhe amo
Mundinha, mas tenho essa fraqueza, esse vício, não me contenho quando começa
aquela comichão vindo de baixo até às entranhas."
- "Logo com Adalberon, seu maior amigo e compadre,
padrinho do Felipinho, fugiu com medo, ainda bem que nosso filho tem um ano,
não entende. Que Nojo! Em nossa cama às quatro da tarde, você de quatro na cama!
O local sacro-santo de um casal foi desonrado. Não quero saber detalhes, fique
calado. Vou pensar o que fazer de minha vida, nem de longe quero vê-lo." Desabafou
Raimunda.
Levantou-se, com desprezo cuspiu no marido, trancou-se no
quarto. Leonardo tremia de culpa, de medo, de angústia, suava frio, vontade de
se jogar pela janela, do segundo andar? Quebraria
apenas duas pernas, pensou. Passaram-se duas horas, mais calmo, conseguiu
telefonar para Adalberon.
"- Oi querido, que merda! Quem ia supor Mundinha
retornar do emprego tão cedo? Vacilamos, azar, estou com vontade de morrer,
quero lhe ver"
-"Léo, minha cabeça está a mil, só penso no
Pedrinho, me apeguei ao menino, como se fosse filho. Vamos dar um tempo colocar a cabeça no lugar,
deixar a poeira baixar, depois a gente se telefona."
Raimunda passou a noite trancada, não quis saber de
conversa, Léo cuidou de Pedrinho com carinho, como sempre. Dormiu no quarto do
filho à custa de lexotan.
Dia seguinte pela manhã, a porta do quarto de casal estava
aberta, ele olhou, não viu a esposa, percebeu um envelope branco em cima da
cabeceira. Retirou uma carta, leu devagar, emocionado.
-
"Leonardo, nessa manhã estou pegando um avião para Fortaleza, meus pais me
chamaram, vou morar com eles. Infelizmente não posso levar o Pedrinho, sei que
você cuida bem dele, pelo menos isso, e dar o rabo, você sabe fazer. Quando eu
estiver empregada venho buscar meu filho. Raimunda".
A carta e a ausência da esposa aliviaram Leonardo. Ele trabalha
em casa com projetos, dá assessoria à algumas prefeituras, necessita apenas
computador e celular, não tem patrão. Tentou ligar para a esposa, não atendeu. Adalberon
apareceu ainda pela manhã, queria ver o afilhado, louco pela criança, afeiçoou-se
a Pedrinho.
Meses se passaram sem notícias de Raimunda, os dois
formaram um casal gay, tão em moda. Beron praticamente era babá e mãe da
criança. Muito fuxico dos vizinhos, inclusive, moradores preconceituosos do
prédio tentaram expulsar o casal gay. Apartamento próprio, sequer foram à
Justiça, não saíram, enfrentaram os preconceitos.
Certa noite bateram à porta do apartamento, apareceu
Raimunda surpreendente, foi enfática, estava trabalhando no Ceará, queria o
divórcio e levar o menino. Choro geral, eles recusaram, não dariam a guarda de
Felipe. Ela contratou uma advogada, retornou à Fortaleza. Depois de algumas
audiências, o juiz deu ganho à Raimunda. Imediatamente ela retornou a Maceió,
assinou o divórcio, levou o filho para Fortaleza, sob protestos e choros da
dupla Beron e Léo. Nunca se acostumaram à falta de Pedrinho, catástrofe
doméstica.
O tempo foi passando, um vazio sem Pedrinho. De repente
Adalberon desapareceu do apartamento, da cidade, Léo o procurou
desesperadamente. Ninguém encontrava Beron.
Certo dia alguém deu a notícia, Adalberon estava morando em Fortaleza.
Ele convenceu Raimunda, seria um excelente babá, tinha um amor, um apego,
inexplicável por Pedrinho, tomaria conta do menino sem remuneração, apenas
comida. Logo arranjou um emprego, ajudou a mãe da criança. Conversando com
Raimunda, confessou detalhes de seu
relacionamento gay, ele, Beron, era Papacus e Léo, Dadacus. Inesperadamente aconteceu uma noitada de amor,
ajudados pela cervejinha. Raimunda, carente, gostou e aceitou. Hoje vivem
maritalmente, Pedrinho bem cuidado, um casal simpático aos vizinhos.
Leonardo ao saber da notícia, desabou a chorar, sem
Raimunda, sem Adalberon, vida inútil. Fez tratamento psiquiátrico, melhorou a
cabeça, não quer mais acasalamentos, quando aparece a tal comichão, vai à luta satisfazer
seus desejos, sem esquecer jamais, seus dois amores.

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