Sebastião Nery
O PAÍS DE NASSAU
Você vê o holandês falando sua língua áspera, gutural, irregular, a boca cheia de consoantes, jamais pode imaginar que seus tataravós foram o romanos, aqui chegados 50 anos antes de Cristo, com sua doce, maviosa e sintética língua latina.
As legiões de César Augusto vieram até o delta do Reno, bem além dos gauleses (franceses). Dominaram uma região plana, arenosa, açoitada pelos frios ventos do norte e invadida pelas tormentas do mar. Já encontraram aqui tribos de origem nórdica. Viviam de caça e pesca. Eram uns índios brancos: os batavos, os francos, os frisões, os sajões, falando dialetos parecidos, mas nem tanto.
==========
ROMANOS
Mas na frente, as lutas foram religiosas. Os reis mandavam primeiro seus missionários e iam atrás com suas tropas (como hoje pastores americanos e padres europeus na Amazônia). Carlos Magno ocupou, “converteu”e criou o Império (dois séculos), dividindo as terras entre condes e vassalos. Pelo norte, ainda tinham que enfrentar as invasões do mar e dos vikings, que chegavam em suas caravelas encantadas, atacavam, saqueavam e sumiam nos nevados abismos do Polo Norte.
O TACITURNO
As várias cidades começavam a ficar ricas e poderosas, e passavam a brigar umas com as outras ou, todas juntas, com os governos de fora, da Espanha, França, Alemanha, Áustria.
Em 1609, a Espanha reconheceu a independência e a Holanda se torna um reino autônomo. E se lançou ao mar: chegou ao Brasil (Recife; na Bahia, nós não deixamos), ao Caribe (Aruba, Curaçao, Bonaire, ilhas da Ásia). De vítima, passa a algoz. De colônia, a império.
A Holanda espalha seu poder, sua cultura, e vai assim até o começo da Segunda Guerra quando é invadida pelos alemães. E hoje é o que é porque manteve intocada, ao longo de séculos, sua tradição de luta contra a dominação externa.
MAURÍCIO DE NASSAU
Nunca entendi por que Maurício de Nassau, elegante, bonito, com seus mais de 50 artistas capazes de construírem as belezas de Olinda e as enluaradas pontes de Recife não conseguiram ganhar a briga com os portugueses, os negros e as doces índias, sendo expulsos 30 anos depois.
Jorge Amado, sábio, ensinou que as civilizações se constroem no amor e na cama. Aqui, fica claro. Com essa língua gutural, ríspida, dura, como é que o holandês ia levar uma portuguesa, uma negra ou uma índia para a cama? Faltava a comunicação. Faltava a linguagem.
Enquanto isso, os portugueses comandados pelo padre Anchieta, pelo padre Manoel da Nóbrega, pelo padre Aspicuelta Navarro ganharam todas as batalhas de 1600 contra os holandeses e os expulsaram para cá.
HAIA
Não seria por falta de experiência e dor, na história e na alma, que a Holanda deixaria de ser sede da Corte Internacional de Justiça e do Tribunal
Penal Internacional, aqui em Haia, com julgamentos.
Entre 15 e 18 de julho de 1995, em Srebenica, um enclave muçulmano na Bósnia, teoricamente protegido pelos “capacetes azuis” da ONU, foram massacrados, à faca e fuzil, de 2 mil a 2.500 homens.
Os testemunhos dramáticos traumatizaram a todos no Tribunal: um muçulmano bósnio (identificado apenas como A) e um soldado croata a serviço do exército sérvio-bósnio, Drazen Erdemovic, calcularam que assassinaram entre mil e 1.200 civis muçulmanos em Srebenica. Os rostos desfigurados pelas câmeras do Tribunal, eles contaram horrores.

Nenhum comentário:
Postar um comentário