sábado, 6 de setembro de 2014

UM TEXTO DE MARCOS DAVI - GAZETA DE ALAGOAS

A LENTE DE KANT
 MARCOS DAVI MELO – membro da AAL.
O Chile sangrava sob a ditadura de Pinochet. A esquerda que emigrava de toda a América Latina para o colo de Allende, era esmagada, mas, quando entrevistado pelo Le Monde, Pinochet declarou: “Mais democracia do que a que praticamos, creio que não existe em outra parte do mundo”.

Atualmente, na Venezuela, o regime de Maduro cerceia a liberdade de expressão; fecha órgãos de imprensa independentes, cria milícias que fustigam e apavoram opositores do regime que ousam se manifestar; controla o Judiciário e se autointitula “ democracia bolivariana”.

Kant dizia que todos nós vemos o mundo por um filtro, que é a mente humana. A corrida eleitoral brasileira chega a um ponto imprevisto no seu início, com chances reais de Marina ganhar a eleição. Mas é fundamental que a candidata esclareça como vê a democracia e o papel do Estado em sua formulação.

Aperfeiçoamentos da democracia sempre podem ser feitos,como os plebiscitos sobre questões binárias, realizados em alguns estados dos EUA; mas a “democracia direta” – como os Conselhos Populares, propostos pelo arrogante decreto 8.243, emanado do Executivo – e inspirada no modelo bolivariano é autoritarismo disfarçado de democracia.

O Planalto patrocina o autoritário decreto 8.243, que despreza a Constituição, e não é suficientemente tranquilizadora a garantia de que as Instituições nacionais estão devidamente sólidas para repeli-lo; mas a metamórfica candidata Marina Silva, já mostrou simpatia por essa vertente despótica e, definitivamente, precisa assumir uma posição pública, clara e concreta sobre tão relevante questão.

O saudoso Ulisses Guimarães, superada a ditadura militar brasileira e restaurada a democracia, dizia: “A grande força da democracia é confessar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se autopromovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes”.

Entre estas insuperáveis forças da democracia estão a alternância de poder e a possibilidade de que isso possa realmente ocorrer. Mas a alternância deve vir, com aperfeiçoamentos que respeitem a Constituição e as Instituições e sem que os postulados básicos da democracia sejam ameaçados; e Marina, sobre questão tão fundamental e sob a luz da lente de Kant, ainda é uma incógnita.

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