No domingo passado, dia 20, o colaborador fubânico Maurício Melo, meu compadre e meu amigo, um dos maiores jornalistas literários do Brasil, publicou em sua coluna, aqui no JBF, um texto intitulado “Dos trabalhos de Caetana“.

Um texto no qual ele dava notícia de que a Morte estava trabalhando com mais ligeireza no seu roçado, levando com Ela muita gente boa do campo da literatura. Nos últimos tempos, a Indesejada dos Povos tem investido com inesperado furor em cima dos escritores.
E, neste último domingo, a gente nem desconfiava que, no dia seguinte, Ariano Suassuna sofreria um AVC e que a Moça Caetana viria buscá-lo três dias depois…
A primeira vez que estive pessoalmente com Ariano foi num evento aqui no bairro da Casa Forte, na Associação Nacional de Escritores. Foi Orlando Tejo, de quem Ariano era muito amigo, que fez a apresentação:
- Ariano, este aqui é o Luiz Berto.
- Ah! Então é você o rapaz de Palmares, num é? – me disse ele, seguido de um abraço.
Meu ídolo saber que eu era de Palmares me deixou feliz que só a peste. E isso, na minha cabeça, queria dizer que ele conhecia alguma coisa das besteiras que eu havia publicado.
Naqueles momentos, ao associar meu nome ao nome da minha terra de nascença, Ariano me trouxe à lembrança uma matéria que saiu na revista Veja, em novembro de 1984.
Era uma resenha sobre O Romance da Besta Fubana, na qual se afirmava que o meu estilo “lembrava” dois grandes escritores brasileiros que eu admiro muito. E um deles era exatamente Ariano Suassuna. O outro era Márcio Souza, autor de um livro que eu acho admirável, Galvez, Imperador do Acre.
Ser comparado a dois cabras cujas obras eu sempre tive em alta conta, foi motivo de grande contentamento.
Quando a matéria da revista Veja saiu, eu já havia lido O Romance d’A Pedra do Reino, que foi publicado em 1971. E já tinha Ariano Suassuna na conta de mito da Nação Nordestina, um romancista de primeira grandeza, um ficcionista que dignifica a literatura brasileira, um dramaturgo encenado no mundo todo. Enfim, fiquei satisfeito que só a porra.
Tempos depois, estive novamente com Ariano no mesmo lugar, a Associação Nacional de Escritores, na Rua do Chacon, num evento em que ele era homenageado. Mais uma das muitas e merecidas homenagens que ele estava sempre a receber.
Anos depois, reencontrei Ariano Suassuna no Banco do Brasil, agência Casa Forte.
Descobri, pra minha surpresa, que tínhamos uma gerente comum, Maria Ângela, zelosa reponsável pelas nossas contas.
Eu costumava brincar e fazer pilhéria dizendo que, embora tivéssemos contas na mesma agência e fôssemos cuidados pela mesma gerência, eu ia ao banco pra negociar meus rombos e tentar sair do vermelho; enquanto que Ariano ia apenas saber como estavam os rendimentos dos seus gordos e merecidos direitos autorais.
Foi lá na agência, enquanto aguardávamos a vez de ser atendidos por Maria Ângela, que a Papisa Aline fez esta foto:
Pois é. Ariano encantou-se. Partiu antes do combinado. Ainda bem que teve tempo de terminar seu último livro, a ser publicado postumamente. Na última entrevista que ele deu, pra Rede Globo, que foi hoje ao ar, dia do seu sepultamento, Ariano afirma que neste livro ele conseguiu realizar um sonho: fundiu romance, dramaturgia e poesia num único texto. Aguardo ansioso a publicação.
Neste final de semana eu começo a reler A Pedra do Reino, no qual me inspirei e do qual copiei descaradamente a expressão “Igreja Sertaneja“, quando resolvi batizar a associação de cabras safados que criei pra congregar os cachacistas do mundo todo.
De ontem pra hoje já se disse e já se escreveu muita coisa sobre Ariano Suassuna e sua obra. De norte a sul, de leste a oeste, seu nome e sua obra dominam o noticiário. Suas histórias, ditos, frases e tiradas dariam um livro de grosso volume. Confiram algumas poucas que foram publicadas hoje por Ricardo Noblat clicando aqui. Existem centenas de outras.
Tem uma frase dele que eu já utilizei várias vezes e em diversas ocasiões:
“Existem dois tipos de pessoas: as que concordam comigo e as equivocadas”
Um sujeito fantástico, um ser humano da porra e uma obra de primeira grandeza, uma produção que é motivo de orgulho pra todos nós brasileiros. Vejam esta outra frase sua:
“É claro que, objetivamente, eu sei que vou morrer. Não sei se você já notou, mas nenhum de nós acredita que morre, o que é uma bênção. A gente se porta a vida toda como se nunca fosse morrer, o que é muito bom. Porque se a gente for pensar na morte como uma coisa fundamental, inevitável e próxima, a gente vai perder o gosto de viver, vai perder o gosto de tudo. Pensar que vai morrer prejudica um pouco a qualidade de vida, e eu sou um apaixonado pela vida, amo profundamente a vida. Olhe que essa maldita tem me maltratado, mas eu gosto dela”
Num tenho mais nada a dizer.
Termino esta singela homenagem com um poema de Cecília Meireles, intitulado Vigília:
Como o companheiro é morto,
todos juntos morreremos
um pouco
todos juntos morreremos
um pouco
O valor de nossas lágrimas
sobre quem perdeu a vida,
não é nada.
sobre quem perdeu a vida,
não é nada.
Amá-lo, nesta tristeza,
é suspiro numa selva
imensa.
é suspiro numa selva
imensa.
Por fidelidade reta
ao companheiro perdido,
que nos resta?
ao companheiro perdido,
que nos resta?
Deixar-nos morrer um pouco
por aquele que hoje vemos
todo morto.
por aquele que hoje vemos
todo morto.

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