quinta-feira, 12 de junho de 2014

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA

Naquela mesa

Ronald Mendonça
Médico e Membro da AAL

A Copa do Mundo de 1954 poderia ter sido a redenção do futebol brasileiro. Quatro anos antes, diante de uma plateia de duzentas mil pessoas, o Brasil seria derrotado pelo Uruguai. O que mais doeu, é que havia uma absoluta certeza de vitória. Afinal, pensava-se, o nosso escrete era imbatível. Tinha uma defesa sólida, praticamente a do Vasco da Gama, a não ser por Bigode, um caceteiro lateral (“half”) esquerdo do Fluminense.
Sob o comando do flamenguista Flávio Costa, Zizinho, o Mestre Ziza, jogava a bola onde queria.Vi uma entrevista de Costa em que ele afirmava justamente esse detalhe. Quando ele mandava “alimentar” , por exemplo, o Chico, o ponteiro esquerdo, Zizinho enchia o cara de bolas até ele cansar.
O pernambucano Ademir, o “Queixada”, era um centroavante valente. Tinha um diferencial em relação aos colegas: era estudante de odontologia. Estaria sendo leviano se dissesse que o Brasil “ainda tinha” um Jair da Rosa Pinto, um Friaça...
Ainda garoto, vi algumas dessas figuras jogando no campo do CSA. O goleiro Barbosa era xingado o tempo todo pela torcida. O nome mais doce era “frangueiro safado”... O cara olhava para trás, dava um sorriso e isso parecia atiçar ainda mais o furor “esculhambandi”.
Em 1954,o Brasil tinha um técnico retranqueiro. De fato, Zezé Moreira, eterno treinador do Fluminense, trazia na bagagem um campeonato carioca ganho praticamente com o placar de um a zero. Teria em Telê Santana um ponta direita ideal que defendia mais que atacava e um goleiro excepcional: Carlos Castilho.
Mas o ponta direita, em 1954, era Julinho, do Palmeiras. Didi, era o grande maestro. Personalidade forte, voluntarioso, ao ser impedido de estar com Guiomar, futura companheira, nosso Didi fez greve de fome. Meu pai, José Lopes de Mendonça, que nesse 11 de junho faria 93 anos, era um entre milhões de brasileiros, que achava que o Brasil perdera o jogo contra a Hungria por conta da greve de fome de Didi. “Ele escorregava o tempo todo”, relatou-me o velho, muitos anos depois.

Em 1999, perdi o pai e dois filhos, Lavínea e Roninho. Cada um no seu estilo, todos eram loucos por Copa do Mundo. Como nas últimas Copas e enquanto eu raciocinar, serão três torcedores a mais, vivos e presentes nas minhas lembranças e saudades.

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