Naquela mesa
Ronald Mendonça
Médico e Membro da AAL
A Copa do Mundo de 1954 poderia
ter sido a redenção do futebol brasileiro. Quatro anos antes, diante de uma
plateia de duzentas mil pessoas, o Brasil seria derrotado pelo Uruguai. O que
mais doeu, é que havia uma absoluta certeza de vitória. Afinal, pensava-se, o
nosso escrete era imbatível. Tinha uma defesa sólida, praticamente a do Vasco
da Gama, a não ser por Bigode, um caceteiro lateral (“half”) esquerdo do
Fluminense.
Sob o comando do flamenguista Flávio
Costa, Zizinho, o Mestre Ziza, jogava a bola onde queria.Vi uma entrevista de
Costa em que ele afirmava justamente esse detalhe. Quando ele mandava
“alimentar” , por exemplo, o Chico, o ponteiro esquerdo, Zizinho enchia o cara
de bolas até ele cansar.
O pernambucano Ademir, o
“Queixada”, era um centroavante valente. Tinha um diferencial em relação aos
colegas: era estudante de odontologia. Estaria sendo leviano se dissesse que o
Brasil “ainda tinha” um Jair da Rosa Pinto, um Friaça...
Ainda garoto, vi algumas dessas
figuras jogando no campo do CSA. O goleiro Barbosa era xingado o tempo todo
pela torcida. O nome mais doce era “frangueiro safado”... O cara olhava para
trás, dava um sorriso e isso parecia atiçar ainda mais o furor “esculhambandi”.
Em 1954,o Brasil tinha um técnico
retranqueiro. De fato, Zezé Moreira, eterno treinador do Fluminense, trazia na
bagagem um campeonato carioca ganho praticamente com o placar de um a zero.
Teria em Telê Santana um ponta direita ideal que defendia mais que atacava e um
goleiro excepcional: Carlos Castilho.
Mas o ponta direita, em 1954, era
Julinho, do Palmeiras. Didi, era o grande maestro. Personalidade forte,
voluntarioso, ao ser impedido de estar com Guiomar, futura companheira, nosso
Didi fez greve de fome. Meu pai, José Lopes de Mendonça, que nesse 11 de junho
faria 93 anos, era um entre milhões de brasileiros, que achava que o Brasil
perdera o jogo contra a Hungria por conta da greve de fome de Didi. “Ele
escorregava o tempo todo”, relatou-me o velho, muitos anos depois.
Em 1999, perdi o pai e dois
filhos, Lavínea e Roninho. Cada um no seu estilo, todos eram loucos por Copa do
Mundo. Como nas últimas Copas e enquanto eu raciocinar, serão três torcedores a
mais, vivos e presentes nas minhas lembranças e saudades.

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