sábado, 14 de junho de 2014

DEU NO JORNAL DA BESTA FUBANA - UM TEXTO DE MARCELO ALCOFORADO

E SE O BRASIL FOSSE UM CAMPO DE FUTEBOL?

“Foi bonita a festa, pá”, cantou Chico Buarque de Holanda na sua memorável “Tanto mar”. O verso, contudo, também pode ser aplicado à festa de abertura da Copa do Mundo, na tarde de ontem.
Houve até inequívoca afirmação da tecnologia brasileira, quando um paraplégico munido de um exoesqueleto obediente às ordens do seu cérebro deu o pontapé inicial da partida de abertura da Copa. Foi emocionante, registre-se, embora o esplendor haja sido a predominância de pessoas vestidas de verde-amarelo, mal contendo as lágrimas durante o Hino Nacional cantado “a cappella”.
Pena que tal convicção patriótica se cinja ao futebol.
Imagine-se este mesmo povo que lota os estádios, cobrando pacificamente aos nossos representantes parlamentares e aos governantes uma conduta lhana.
Imagine-se este mesmo povo decidido a moralizar a vida do país, começando pela própria conduta, e se negando, com extremada convicção, a eleger e reeleger os mercadores de ilusões…
Foi mesmo bonita a festa, pá, mas a letra do nosso Hino, tão rica de metáforas, hipérbatos e tantas outras figuras de linguagem – poderia ter muito mais sentido, ainda que com as mesmas palavras: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas, de um povo heróico o brado retumbante…” Ora, este povo só poderá se dizer heróico no dia em que rasgar e queimar as páginas obscenas da vida nacional. Nesse dia, sim, poderá entender o que realmente significa “o Sol da liberdade em raios fúlgidos”.
As manifestações no campo futebolístico, ainda bem, não foram vãs.
Afinal, tanto o Hino cantado com fervor, como, com igual intensidade, os apupos à senhora presidente da República, embora com censuráveis excessos retóricos, foram gols tão importantes quanto aqueles ocorridos no gramado.

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