sábado, 17 de maio de 2014

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA

O CRUEL SER HUMANO
Por: » RONALD MENDONÇA - médico e membro da AAL.
De vez em quando, sentia-me compelido a ver documentários do mundo animal. Meus netos eram menores e os bichos despertavam incomensurável curiosidade.
Por que não dizer? Paixão e compaixão. O mais velho, Caio, era fixado nos dinossauros. Fiquei triste quando ele demonstrou não estar tão interessado pelos lagartos pré-históricos. O clímax dessa tragédia foi ele desistir de ser veterinário.
Os vídeos me remetiam aos objetos internos mais primitivos quando bisões eram impiedosamente massacrados pelos leões. Canalhas! Sem coragem de encarar os chifres de frente, usavam de golpes baixos, atacando em bandos. Elegiam os indefesos, os deficientes físicos. A Natureza não perdoa solitários, mancos e fracos.
Finais previsíveis, os cercos a zebras e girafas eram angustiantes. As pescoçudas girafas estão entre os mais emblemáticos seres. O evolucionista Lamarck, de tão impressionado, as incluiu como prova inconteste do seu enunciado que garantia que “a função faz o órgão”. Os leões faziam vista grossa a esses conhecimentos.
Tendo a “cadeia alimentar” como modelo, biólogos, ambientalistas e palpiteiros esforçam-se para demonstrar tolerância nessa selvagem “lei do mais forte”, ou “lei da selva”. Assim, seria justo, o sacrifício de alguns para o equilíbrio da Natureza. Nada de maldade, sadismo, perversão, muito menos crueldade...
A propósito, em recente ensaio, registrei que um tio, antes de sangrar um caprino para uma buchada, aplicava-lhe golpes no segmento cefálico para tirar-lhe a consciência. Houve protestos. Só não concordo que tenha havido tortura. De fato, devem existir meios menos rudes de sacrificar essas criaturas. Quem sabe poderia ocorrer em ambiente cirúrgico, sob anestesia geral, com a, digamos, vítima intubada...
Diz-se que bovinos sacrificados em frigoríficos seriam espetados por um estilete que lhes atravessa a nuca, lesionando a transição bulbopontina. Há paralisia e morte imediatas. Não saberia dizer se essa via é a mais “humana”.
Creio não haver meio mais terrível que o empregado para matar os lindos peixinhos: a asfixia. Retirados da água, não respiram. Pergunto-me como alguém ainda tem coragem de comer um escabeche de peixe, mesmo sabendo de morte por tão vil processo.
Quando não são atropeladas, as simpáticas galináceas são sacrificadas através de golpes mortais no pescoço. Morrem por anemia e hipóxia. A agonia é breve, mas angustiante. Há convulsões. Nem todos têm estômago para assistir a essas cenas.

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