Era cedo. O sol há pouco rebentara sobre as águas calmas, claras, do East River, descortinando-se por trás dos edifícios altos do Queens, revelando os mistérios da terra. Já pouco havia o que fotografar, pois os ponteiros do relógio corriam para informar a sétima hora do dia. Fechei a câmara e me pus a caminho. Na manhã de domingo a cidade também não dorme como o comum das outras urbes. Carros buzinam nos sinais, ambulâncias passam com as sirenes abertas, veículos imensos carregam bombeiros e alardeiam uma emergência que ninguém sabe onde se dá. Caminho buscando ilhas de paz, mas antes preciso passar em algum lugar, não necessariamente uma padaria, para comprar algo parecido com pão.
Atravessava a rua seguindo duas mulheres. Uma imensa, farta em gordura, sóbria e calada. Junto a ela, uma outra, magérrima, que, mesmo fumando, não parava de falar. Certamente eram amigas. Na calçada uma, a serena, segue pela esquerda sempre calada enquanto a outra, depois de jogar o resto do cigarro no chão, sempre falando, entra na loja de conveniências e se dirige ao balcão. Como se estivesse ali há horas, mantém acalorada conversa, um quase monólogo, com o atendente.
Somente então passei a compreender melhor a situação. Frequentemente vejo cenas semelhantes nestes meus dias modernos. Como ainda sou de espantos, olho com muito pouca intimidade as pessoas que passam falando sozinhas. Para meu curto entendimento, está em franco crescimento o número de doidos mansos no mundo.
Somente então passei a compreender melhor a situação. Frequentemente vejo cenas semelhantes nestes meus dias modernos. Como ainda sou de espantos, olho com muito pouca intimidade as pessoas que passam falando sozinhas. Para meu curto entendimento, está em franco crescimento o número de doidos mansos no mundo.
Lembro muito bem deles. Seguiam sempre solitários, conversando com um invisível interlocutor. Em Palmares Jipinho passeava em seu carro ora com um parceiro, ora com uma namorada. Respeitava todas as leis de trânsito e só parava de falar para imitar o som de seu carro que vencia com força as ladeiras da cidade. Em Catende, Pelengo tinha uma eterna discussão acalorada sobre os benefícios que a usina dava aos seus trabalhadores, enquanto o opositor que mais ninguém via insistia em relatar as maldades do usineiro. Em Matriz de Camaragibe Medalha rezava para o Padim Ciço, conversando intimamente com seu santo padrinho. Só parava suas preces quando os moleques o chamavam de Sete-Tuia, um apelido humilhante que qualquer dia contarei em outra crônica.Estes meus malucos de eleição tinham sabedoria e delimitavam território. Certo dia apareceu na cidade de São Bento do Una um doido vindo das bandas de Agrestina, assim conta Alceu Valença. Zanzou pelas ruas até a noite cair, e pensou encontrar aconchego num banco de praça, mas aí o doido oficial do lugar foi tomar satisfação. - Olhe aqui, moço, você já fez sua brincadeira, agora tome seu rumo, pois o doido oficial da cidade sou eu.
Penso nestes queridos cidadãos enquanto caminho por aqui ouvindo espantado homens e mulheres falando sozinhos. Juro que ainda não me acostumei e somente com um olhar mais atento descubro que eles falam nos fones de ouvido ligados aos telefones celulares. Os tempos modernos não permitem os encontros, não deixam tempo para uma conversa mais descompromissada. Assim procurei algo ligado ao ouvido da mulher falante que entrou junto comigo na loja de conveniências e nada encontrei. Ela falava mesmo para alguém que ali por perto quisesse ouvir uma voz. E aprendi que os homens de hoje têm algo em comum com os viventes de outrora: a infalível solidão.



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