sábado, 17 de maio de 2014

UM TEXTO DE MAURÍCIO MELO JÚNIOR

 LIVROS ESQUECIDOS, LIVROS ROUBADOS




Um sertanejo apaixonado, de nome Graciliano Ramos, escreveu numa carta de amor para uma ainda insegura pretendente:
“Examinando o decálogo, vejo com desgosto que das leis do velho Moisés apenas tenho respeitado uma ou duas. Nunca matei nem caluniei. E ainda assim não posso afirmar que não haja, indiretamente, contribuído para a morte de meu semelhante. Não sei. Furtar, propriamente, não furto; mas todos os meus livros do tempo de colegial foram comprados com dinheiro surrupiado a meu pai.”
Lembrava estas palavras, e me confortava, caminhando pelas ruas frias da cidade com um livro surrupiado escondido sob o casaco de couro que me protegia da frialdade orgânica desta terra (que Augusto dos Anjos perdoe este plagiário). Vamos lá, o caso eu conto como o caso foi: o ladrão é ladrão, o boi é boi.
Entrei na cafeteria com um único objetivo, fazer o que todos fazem num ambiente como este – tomar um café. Fiz meu pedido, paguei a conta regularmente, recebi o copo imenso e quente, apanhei açúcar e uma dessas míticas, plásticas e modernas colheres e fui sentar numa das mesas que ainda tinha espaço. Ali, sobre o móvel, folhas de um jornal espalhadas e ele, meu objeto de eterno desejo, o livro.
Dias antes, numa filial desta mesma cafeteria, a tentação me tomou. Sobre a bancada onde se expunham incontáveis saquinhos de açúcar e adoçante um tentador Philip Roth. Não consegui sequer ler o título do romance, e para fugir deste teatro de vícios e perdições, lentamente mexi o café, lentamente descartei aquela colher vagabunda, lentamente fugi do perigo. Confesso que não rezei, pois já esqueci todas as lições que me ensinaram padre Abílio e o bispo Dom Acácio.
Neste novo encontro, no entanto, as artimanhas do diabo eram bem melhores engendradas. Na mesa longa apenas um rapaz que mais cochilava e outro mergulhado nas informações que lhe mandava seu notebook. Cauteloso, perguntei ao sonolento companheiro se o livro lhe pertencia. Recebi o provocante não como resposta. Destarte apanhei distraído o volume que parecia mesmo ter sido esquecido por um leitor talvez enfadado. Li o título, How Fiction Works, e o nome do autor, James Wood, da linha de escritores do The New Yorker e professor visitante de Harvard.
NY 2
Cresciam minhas ambições. Tomei um largo gole de café para moderar meus apetites. Respirei fundo e continuei minhas pesquisas. E aí veio o tiro fatal. No índice onomástico encontro nome de Jorge Amado. Bom aí não havia mais prece ao santo Padre Cícero que segurasse este nordestino. Joguei o livro no bolso do casaco e deixei a cafeteria com o ar mais sério que encontrei.
Buscando todas as referências possíveis para justificar meu crime, depois de evocar Graciliano Ramos, recorri a João Cabral de Melo Neto. O poeta defendia a tese que nenhum livro deveria ficar isolado numa biblioteca qualquer. Depois de lido, deveria ser doado, esquecido em algum lugar, dado de presente, tudo menos o resguardo frio das estantes. Acho que a ideia tem tomado corpo por aqui, mesmo assim continuo crente ter sido esta a única vez que discordei do ídolo. Livro meu tem história e merece respeito. Se gosto, ou mesmo se não gosto, todos ficam guardados comigo. Vez em quando recorro a um deles. E ninguém, nem mesmo os computadores todos da NASA, traz em si a capacidade de mensurar o prazer que é rever uma velha anotação, um erro de avaliação, um reencontro de amor e paixões. Vocês têm toda razão, além de ladrão, sou egoísta.
Em casa, longe dos olhares indiscretos, fui saber o que o senhor James Wood pensava do meu querido Jorge Amado. E aí ruíram todas as cartas de meu castelo. O tal Jorge era Amador e ao invés da Bahia escolhera o México para viver. Também, ao que consta, nunca escreveu romances. Era um chefe de polícia que incentivava seus subordinados a ler.
Eu poderia até ter me arrependido de meu gesto vil, mas já de nada isso adiantaria. O crime perfeito estava definitivamente perpetrado. 

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