sábado, 17 de maio de 2014

UM TEXTO DE MARCOS DAVI

O PIF-PAF
Por: » MARCOS DAVI MELO - médico e membro da AAL e do IHGAL.

A Flip vai homenagear o Millôr Fernandes e já não era sem tempo. A falta que ele nos faz! Lembram do Pif-paf, aquela página semanal que criticava com inteligência e bom humor as mazelas nacionais e nos fazia entender melhor o que se passava? Lembram do Pasquim e de obras, como a Bíblia do Caos, que nos ajudavam a tolerar as nossas aberrações, que o tempo não amainou?
Peço licença ao respeitável leitor: não resisti à tentação, vou fazer um exercício e utilizar pensamentos do Millôr para tentar entender essa doideira nacional: como as ruas foram ocupadas por animais que lincham seus semelhantes, por vândalos que saqueiam lojas, por manifestantes que protestam contra os gastos exorbitantes da Copa do Mundo, enquanto outros se aproveitam dela para paralisações e greves de todo o tipo a atormentar a todos – o que diria o Millôr?
Diante dos protestos de rua contra a Copa; das arenas e demais obras ainda inacabadas há menos de um mês do evento, mesmo usando e abusando do Regime Diferenciado de Contratações (hum...); diante do secretário-geral da Fifa que afirmou ser o número exagerado de estádios uma exigência do governo brasileiro e da inevitável insatisfação pública, confrontada com o exuberante otimismo oficial, seria inevitável o seu venenoso “Basta você examinar um otimista pra descobrir, por baixo da compra sem licitação, um superfaturamento”.
Sobre o governo, que poderia evitar muitos desses transtornos e tem sido leniente com o vandalismo, recebendo no Planalto os agitadores sem-teto, logo após invasão e depredação das mafiosas empreiteiras da Copa, turma que no conjunto faz uma associação suspeitíssima, Millôr escreveu: “Exemplo de absoluta probidade era o cego de um olho só, que devolvia aos passantes a metade do que recebia”.
Sobre o futebol, eterna paixão nacional, agora motivo de inédita e raivosa polêmica, ele escreveu bastante, mas vou ficar com uma que parece feita para o momento: “Futebol, o pio do povo!”.
Sobre o Brasil, afirmou que era “o país do faturo”, mas, a seu modo, também nos deixou uma mensagem de esperança: “Este é o país onde há a maior possibilidade de criar um mundo inteiramente novo. Caos não falta”. Salve o Carlito Lima, que vai todo ano para a Flip e o Millôr Fernandes, que, com seus livros, mantêm-se vivo, nos ajudando a entender nosso país.

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