
CARTAS AMERICANAS (IV) – O BRASIL PERDIDO
Embalado pelas expectativas de sucesso financeiro, já na idade madura, começou a cumprir uma promessa de adolescente. Lembrava bem da ocasião. Sentado na porta de uma igreja que vivia fechada, com suas calças curtas de ainda menino, sentenciou: “O mundo é muito grande para se ficar parado. Quero viajar e viajar muito. Quero conhecer até Nova York.”
Entre as necessidades de estudar e ganhar a vida, esqueceu do fato. Não era, no entanto, um esquecimento completo e permanente. Ouvir a voz de Frank Sinatra, assistir aos filmes de Woody Allen, conhecer as loucas histórias de Andy Warhol, ler a geração de Jack Kerouac, tudo lhe trazia uma saudade do ainda por viver, mas a vida seguia em suas urgências e o sonho hibernava na gaveta das possibilidades.
Já quase perdendo as esperanças, num desses recitais que infestavam os bares da década de 1980, ouviu alguém proclamar: “Vou para Nova York em busca do meu Brasil perdido”. De pronto encontrou o motivo que lhe faltava, ir ao encontro do país que se fora. Quis saber o nome do poeta e o guardou para si: Cassiano Nunes. Depois chegou o tempo em que o verso foi esquecido – será que dizia isso mesmo? – e o nome do poeta posto na velha gaveta.
Sozinho, solitário, com outra gaveta recheada com as notas de dólares que a prosperidade lhe permitia, enfim, foi viajar. O país era outro e a piada do dia mandava comprar notas de um dólar nas lojas de 1,99. Foi o que fez. E daí partiu para o aeroporto.
Por precaução, mesmo seguro das lições que tomara de inglês, preferiu velejar por mares mais íntimos. Na Argentina assistiu a uma partida de futebol na Bombonera e não encontrou seu país. Nos seus sonhos a bola dançava nos pés dos jogadores, que não careciam de violências nem de força. Apenas a habilidade valia.
Foi em frente. Na Bolívia, Copacabana era uma cidadela mal cheirosa à beira de um lago imenso. Prenhe de casas feias, ganhava destaque num morro alto onde se rezava e bebia e no imenso santuário dedicado a Nossa Senhora onde a opulência barroca sufocava qualquer sentimento de fé. Também ali não estava a crença modesta e miúda que ouvia nas preces avoengas.
Em Portugal, buscou sua história pessoal. Pensou ter terminado sua busca ao caminhar pelas ruas estreitas e medievais de Óbidos, até que o ruído dos turistas com seus pedidos para serem fotografados desencantou a paz que parecia natural. E tudo, no entanto, era agressão aos seus ouvidos que não suportavam, em frente ao Mosteiro de Alcobaça, os gritos de Michel Teló num irritante aí se eu te pego. Seu país de sons delicados não estava ali a macular os ouvidos apaixonados de Inês de Castro e Pedro I.
O jeito era ir para Nova York. E foi. Havia incontáveis obras entre o aeroporto e o hotel. “Este é meu país”, pensou até que viu que nada impedia o trânsito e todos obedeciam a uma ordem pressentida. Em momentos outros voltou a vislumbrar a hinterlândia de seus desejos, mas tudo se desfazia no ar de maneira imediata. Os mendigos não usavam andrajos. Toda a população se jogava às compras de maneira desesperada, mas ninguém barganhava. É certo que se ouvia português em todas as lojas, onde solícitos vendedores esbanjavam a verve bem humorada na última flor do Lácio, mas era inútil se comunicar com a brandura de Camões fora daqueles espaços. E também no Carnegie Hall já não toca bossa-nova.
Na volta para casa colocou num canto especial da mala a frustração de ter para sempre perdido seu país.
Entre as necessidades de estudar e ganhar a vida, esqueceu do fato. Não era, no entanto, um esquecimento completo e permanente. Ouvir a voz de Frank Sinatra, assistir aos filmes de Woody Allen, conhecer as loucas histórias de Andy Warhol, ler a geração de Jack Kerouac, tudo lhe trazia uma saudade do ainda por viver, mas a vida seguia em suas urgências e o sonho hibernava na gaveta das possibilidades.
Já quase perdendo as esperanças, num desses recitais que infestavam os bares da década de 1980, ouviu alguém proclamar: “Vou para Nova York em busca do meu Brasil perdido”. De pronto encontrou o motivo que lhe faltava, ir ao encontro do país que se fora. Quis saber o nome do poeta e o guardou para si: Cassiano Nunes. Depois chegou o tempo em que o verso foi esquecido – será que dizia isso mesmo? – e o nome do poeta posto na velha gaveta.
Sozinho, solitário, com outra gaveta recheada com as notas de dólares que a prosperidade lhe permitia, enfim, foi viajar. O país era outro e a piada do dia mandava comprar notas de um dólar nas lojas de 1,99. Foi o que fez. E daí partiu para o aeroporto.
Por precaução, mesmo seguro das lições que tomara de inglês, preferiu velejar por mares mais íntimos. Na Argentina assistiu a uma partida de futebol na Bombonera e não encontrou seu país. Nos seus sonhos a bola dançava nos pés dos jogadores, que não careciam de violências nem de força. Apenas a habilidade valia.
Foi em frente. Na Bolívia, Copacabana era uma cidadela mal cheirosa à beira de um lago imenso. Prenhe de casas feias, ganhava destaque num morro alto onde se rezava e bebia e no imenso santuário dedicado a Nossa Senhora onde a opulência barroca sufocava qualquer sentimento de fé. Também ali não estava a crença modesta e miúda que ouvia nas preces avoengas.
Em Portugal, buscou sua história pessoal. Pensou ter terminado sua busca ao caminhar pelas ruas estreitas e medievais de Óbidos, até que o ruído dos turistas com seus pedidos para serem fotografados desencantou a paz que parecia natural. E tudo, no entanto, era agressão aos seus ouvidos que não suportavam, em frente ao Mosteiro de Alcobaça, os gritos de Michel Teló num irritante aí se eu te pego. Seu país de sons delicados não estava ali a macular os ouvidos apaixonados de Inês de Castro e Pedro I.
O jeito era ir para Nova York. E foi. Havia incontáveis obras entre o aeroporto e o hotel. “Este é meu país”, pensou até que viu que nada impedia o trânsito e todos obedeciam a uma ordem pressentida. Em momentos outros voltou a vislumbrar a hinterlândia de seus desejos, mas tudo se desfazia no ar de maneira imediata. Os mendigos não usavam andrajos. Toda a população se jogava às compras de maneira desesperada, mas ninguém barganhava. É certo que se ouvia português em todas as lojas, onde solícitos vendedores esbanjavam a verve bem humorada na última flor do Lácio, mas era inútil se comunicar com a brandura de Camões fora daqueles espaços. E também no Carnegie Hall já não toca bossa-nova.
Na volta para casa colocou num canto especial da mala a frustração de ter para sempre perdido seu país.
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