sexta-feira, 22 de novembro de 2013

UM TEXTO DE ALBERTO ROSTAND

RETOMAR A CREDIBILIDADE É POSSÍVEL
Alberto Rostand Lanverly
Membro das Academias Maceioense e Alagoana de Letras e do IHGAL
            
     Uma de minhas vaidades infantis era o fato de conhecer, de cor e salteado, os nomes de titulares das Secretarias de Estado e Ministérios do Governo brasileiro. Talvez influenciado pelo professor Vilas Boas, que lecionava história, no Colégio Marista, arquivava em uma pasta o perfil de cada uma destas personalidades, que, segundo o inesquecível Mestre, eram, não somente possuidoras de inteligência diferenciada, mas, acima de tudo respeitadas pela  sociedade da época. Esta mesma atenção devotava aos que eram escolhidos pelo voto, nas épocas de eleições.
            Todas aquelas pessoas, fossem eleitas ou indicadas pelos chefes dos executivos, em minha ótica de criança, eram, para mim, homens velhos, alguns tão agressivos quanto soldados em guerra, que, segundo alardeado pelas manchetes dos jornais, “chegavam até a matar ou mandar fazê-lo”. Contudo, lembro bem os comentários dos mais experientes: apesar de violentos, eram honestos com a coisa pública.
            Os tempos passaram e mais uma vez Alagoas, através dos atos de parte de seus dirigentes, afunda em um mar de descrenças. Os detentores do poder perdem a credibilidade de forma galopante, a partir do momento em que alguns dos integrantes da casta, como diriam as crianças,mentem mais em uma única entrevista, do que o macaco pula de galho em galho em um ano de vida. E a população, de tempos em tempos, convive com películas cujo enredo se repete e onde os nomes dos protagonistas pouco mudam, pois, parecem acreditar que na vida escolhida, existe remédio jurídico para tudo.
            Dias atrás, fui ao Parque das Flores reverenciar, pela última vez, o ilustre amigo Ricardo, da Cristal Vidros. Lá encontrei um antigo conhecido de meus pais que. nos anos setenta do século passado, ocupara um destes postos de mando, em Alagoas. Cumprimentei-o, não pelo nome de batismo, mas pelo termo que identificava sua importante função. Para minha surpresa, ele, imediatamente, falando baixinho, olhando para um lado e para o outro pelo canto dos olhos, respondeu: “pelo amor de deus, não me chame por esta alcunha, pois, se alguém escutar duvidará de minha honestidade e estarei em maus lençóis”. Sorri e me afastei.
            Depois fiquei meditando sobre aquela resposta e compreendi como as coisas mudaram. Hoje, tenho minhas dúvidas se um jovem letrado seria capaz de citar, com orgulho, ao menos uma dezena de nomes das autoridades do Brasil atual.
A cada instante, mais concluo: se consigo sobreviver, mesmo descrendo de alguns homens (e mulheres), é porque acredito piamente no respeito que devoto às pessoas com as quais convivo, apostando na humildade de gestos, fortalecendo a certeza de que a importância de trilhar o caminho da descrença é que, neles, sempre há inúmeras possibilidades de surgirem situações, que, apesar de complicadas, são fortes o bastante para reconduzirem a pessoa, ou uma sociedade, ao desenvolvimento da credibilidade bem fundamentada, e, assim, quem sabe, novos nomes, dignos de serem aprendidos pela juventude do futuro, surgirão, e, com eles, a retomada da honestidade

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