Na semana em que caras, pintadas ou não, ajudaram a desenhar o maior movimento da juventude brasileira dos últimos 20 anos, alguém aí se lembra da "bunda-pintada"?
Carla Taís dos Santos, 33, ou Carlinha, para os mais chegados, recorda-se como se fosse ontem do dia em que "parou tudo" em Brasília, ao desfilar nua em frente ao Congresso Nacional.
Era 2001. A garota tinha 21 aninhos --e atributos típicos da idade, por exemplo os bem distribuídos 56 quilos e um generoso painel para abrigar frases do tipo "CPI Já".
Ao tirar a roupa contra o segundo governo de FHC (1999-2002), Carla, então presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), ganhou fama nacional de "bunda-pintada".
Carla Santos
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Carla com ampliação de foto feita pela Folha na qual aparece nua em protesto contra o governo FHC
Na semana passada, ela participou de uma manifestação em Novo Hamburgo (RS) que fechou a BR 116.
Dessa vez, ou seja, 12 anos depois da nudez, de roupa.
Considera a redução das tarifas uma grande vitória que deve ser comemorada e "servir de impulso para mais organização e novas conquistas", embora "ainda não inverta a lógica das máfias do transporte". Rechaça a proibição ou hostilidade às bandeiras de partidos nos atos.
"É um absurdo. Lutamos por 21 anos contra uma ditadura que fez exatamente o mesmo. Está na contramão da liberdade de expressão tão defendida nos protestos."
Acha que a depredação de bancos, grandes redes de lojas e ônibus não se justifica, mas "se explica". "Serão os empresários que mais lucram que pagarão a conta."
Já a do patrimônio público, "não faz o menor sentido, pois, além de ser mais um dinheiro que deixará de ser investido na educação e na saúde, divide e afasta o movimento". Só serve ao "prazer egoísta de quem se acha ultrarrevolucionário".

'TAPA-TETA'
Formada em letras pela USP, Carla hoje assessora uma das diretoras da Ancine (Agência Nacional do Cinema), Rosana dos Santos Alcântara. Jura que o cargo não é "boquinha", tampouco cota do PC do B, partido ao qual ela é filiada. "Mandei meu currículo para diferentes pessoas, e a Rosana conhecia minha história de orelhada."
Só de orelhada? "Hoje, sou uma outra mulher", diz, mas os sonhos continuam os mesmos da época de "bunda-pintada". "Se mudanças não começarem a acontecer, a rua continuará a aumentar o volume de seu grito. E eu estarei em todas as manifestações com a perspectiva de construir um Brasil socialista."
Ok, mas pretende ficar pelada de novo? "Tirar a roupa sempre me pareceu um gesto natural", filosofa Carla, que hoje só se despe para o namorado, com quem está há três meses, ou numa praia de nudismo, "pra extravasar".
| Beto Barata-31.mai.2001/Folhapress | ||
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| Então presidente da UBES, de estudantes secundaristas, Carla protestava contra o governo federal, em 31 de maio de 2001 |







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