sábado, 20 de outubro de 2012

Dona Anita: a mulher que emprestou seu passado a um filme sobre a memória. TUDONAHORA


No apartamento da cidade, a personagem Maria avista o passado pela janela
“Obrigada por lembrar de mim!”. A frase, tão usual, ganha outro significado vinda da boca da lúcida e enérgica mulher de 74 anos, mãos calejadas e rosto enrugado pelo sol da Zona da Mata alagoana. Ela respondia ao pedido da reportagem para conhecer o lugar onde mora.
Vivendo num universo quase isolado, perdido no emaranhado de terras da área rural de Boca da Mata, a cerca de 70 km de Maceió, Ana Maria das Neves, a Dona Anita, nunca havia pisado numa sala de cinema quando foi casualmente encontrada e convidada a protagonizar um curta-metragem sobre a memória – e o amor.
“Vou. E vou ser uma atriz linda!”. Essa foi sua resposta imediata e destemida aos produtores do filme O que lembro, tenho, do cineasta e jornalista Rafhael Barbosa, lançado no último dia 5 de outubro.
A idosa interiorana, que traz certo paradoxo por seu espírito desbravador, sabia o que dizia. A atuação de Dona Anita, uma não-atriz estreante na terceira idade, comoveu equipe, público, crítica e a colocou na disputa do prêmio de Melhor Atriz da 3ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano, que acontece na próxima semana, de 25 a 28 de outubro*. O filme vai disputar as onze categorias da mostra competitiva.
Dona Anita conheceu o cinema pela primeira vez na sexta-feira em que foi conferir sua atuação no Cine Sesi, em Maceió. Na tela, interpretou Maria, uma senhora um pouco mais velha, de 85 anos, que numa espécie de transe – típico dos portadores do mal de Alzheimer – passeava entre as lembranças remotas do sítio onde viveu no passado e a realidade desbotada do apartamento urbano no qual, com a filha, esperava o dia em que seria acometida pelo “mergulho suave e sem volta para dentro de si mesma” – o esquecimento total. Um personagem extremamente complexo, na opinião do diretor, que deu alma ao filme.

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