TESOURO QUE MARCA O TEMPO...
Alberto Rostand Lanverly
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e da Academia Maceioense de Letras
Muitos anos atrás, quando ainda não me preocupava com o tempo, adorava freqüentar o casarão de meus bisavós maternos. Eram mais de vinte quartos, várias salas grandes, uma cozinha com dois fogões a lenha, banheiros que possuíam além de vaso sanitário, bidê e chuveiro com água ”quente e fria”, em uma época em que o “banho de cuia” era uma realidade comum nas casas das cidades.
Além de tudo isto, o imóvel, que ainda hoje ocupa quase todo o quarteirão da Praça da Igreja do Rosário, em Caicó, possuía um amplo quintal, com pés de groselha, graviola, romã e cajarana, onde, com freqüência, brincava com “meus tios e primos”. Os ambientes diversos, eram ornamentados por móveis antigos, como sofás, petisqueiros, feitos de madeira finíssima, com janelinhas fechadas por cristal e que guardavam, em seu interior, os “sequilhos e biscoito palito” que eu tanto adorava. Mas, era no ambiente das refeições que se encontrava o item que eu mais admirava: O relógio, em forma de “oito”, que, afixado na parte alta da parede dos fundos, prendia minha atenção sempre que por ali passava.
Naquela época eu tinha tempo para tudo. Até para ficar parado, apreciando o tic-tac dos segundos e o badalar de suas molas, sempre que se completava o ciclo de trinta e sessenta minutos. Ali, eu passei a ter certeza de que “se em casa de avô, sempre é domingo”, a morada de bisavô era como “um castelo de chocolate, com penduricalhos de rapadura e mel por todos os lados”.
Inúmeras foram às vezes que me sentei, em uma das centenárias cadeiras, com fundo de couro, somente para acompanhar o “meu Vozinho Martinho”, “dar corda”, nas engrenagens da maquina que marcava as horas, e em cujo painel, além dos ponteiros, existiam dois orifícios, no interior dos quais uma “chave mestra” era colocada cuidadosamente. O da direita “dava vida” ao mecanismo dos minutos enquanto o da esquerda gerava energia para que, no momento exato, badaladas aflorassem daquela engrenagem secular.
Certa vez, meu ancestral falou que, um dia, aquele relógio me pertenceria. Os tempos passaram. Meu “bivô” morreu, porém minha paixão pela “peça” que, definitivamente, marcou minha infância, nunca arrefeceu. Sempre que retornei àquela casa mágica, reiterei o desejo de ter comigo o “sentimental” item que, um dia, embalara meus sonhos, possuindo um valor familiar, indescritível. Dias atrás, após o falecimento de uma tia querida, recebi um telefonema de uma pessoa muito amada, dando conta de que, a partir de agora, eu seria o responsável pela custódia de um “tesouro que marca o tempo” – o relógio, em forma de oito, que alegrou minha meninice. Exultei com a notícia, menos por seu valor pecuniário, mas, pela história que cada um de seus “tic-tacs” vivenciou.
Agora, enfeitando a parede de meu lar, olhando-o atentamente, entendo que, apesar de sua “fria precisão”, é, para mim, mais do que tudo, a referência da lembrança de “um norte a ser seguido”, tendo, como modelo, as passadas daqueles que fizeram a história de minha família.

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