sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA
A CONTROVERSA MILHARINA HUMANA
RONALD MENDONÇA
MÉDICO E MEMBRO DA AAL
Enquanto acompanhava o levantar das paredes de uma casa, que num futuro abrigaria
a família, perdia horas observando o desenrolar do trabalho pedreiro. Ainda jovem, sol
a pino, quarentão, no início sem ter sequer onde sentar, deixava-me levar pelo vagar do
pensamento. O corpo presente, a alma viajante.
Antevia-me ali com os filhos, naquela época uma adolescente e mais dois meninos, a
desfrutarmos daquele esforço, resultado de economias de 20 anos de duplo exercício
profissional: de minha esposa e meu, ambos médicos. O sonho do pequeno burguês de
Bebedouro, “do insensível membro da elite médica” (na expressão anônima), estava
literalmente se concretizando.
Ao observar o trabalho áspero, às vezes me lembrava da história meio piegas sobre
três pedreiros contratados para erguer um templo. Interrogados sobre o que faziam,
o primeiro disse “bater tijolos”; o segundo, “levantar paredes”, enquanto o terceiro
assegurou “estar construindo uma catedral”.
Ocasiões diversas, ao dialogar com o mestre-de-obras, ria-me sozinho ao recordar de
outra história relatada pelo engenheiro José Augusto. Referia-se a um outro mestre-de-
obras, que descobrira a infidelidade da caliente esposa – e, não obstante os comentários
impiedosos ( e os cruéis adjetivos) do canteiro de obras – apesar da ferida narcísica,
revelar-se-ia magnânimo, devolvendo com perdões as recalcitrantes fraquezas
carnais da mulher. Inquirido pelo indignado engenheiro, responderia com enigmática
sentença: “Doutô, cada um sabe o que pissui”.
Quem também tem se mostrado dadivosa é a presidenta Dilma. Degolados (após
denúncias), logo no primeiro ano de governo, oito ministros, sete por indigência moral,
eis que o ministro Pimentel “Oscar”, acusado de assistir espiritualmente os desprezíveis
capitalistas mineiros, teve suas culpas natalinamente absolvidas pela terna dama.
Quanto a Bezerra Coelho, o chauvinista pernambucano, mesmo sem ser vaca, estaria em
vias do brejo. Fazer o quê se os flagelados do vizinho Estado têm mais cacife de que os
de Alagoas?
Volto às construções. Martiniano era o meu fornecedor de barro (“traço”). Homem
idoso, irredutível no preço, admirava seu esforço e, sobretudo, o senso de humor. Um
velho caminhão garantia-lhe a subsistência. Diariamente, dava duas, três voltas em
Paripueira retornando carregado. Garantia-me que eram seis metros. Tinha orgulho da
pureza do material, ao qual, gargalhando, chamava de milharina.
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