segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

UM TESTO DE ÊNIO LINS


Uma estrela sobe ao infinito: a grande Anilda Leão

9JAN
A maravilhosa Anilda Leão jamais deixou cair a bola. A vida lhe foi sinônimo de animação pura, irreverência construtiva, arte, companheirismo.
Num dia desses recebi um telefonema. Do outro lado a voz inconfundível:
- “Meu querido, estou fraquinha… acho que desta vez você vai fazer aquela minha charge!”
- “Deixa de onda, Anilda. Quando você sair do hospital vamos tomar uns chopes.”
- “Não. Acho que desta vez, vou mesmo. Quero a charge!”
- “Que nada, a charge vai demorar muito. E ainda vamos publicar muita coisa de sua caneta…”
- “Olhe, preste atenção. A minha charge é assim: eu chegando no céu e os santos e anjos apavorados, gritando ‘Socorro, a Anilda chegou!!’. Você sabe que eu vou bagunçar tudo por lá, vou fazer uma agitação danada”.
- “A ideia é boa. Mas muito irreverente… E além disso vai demorar para ser feita…”
- “Vou desligar porque vão acabar os créditos da Nira. Não se esqueça de como deve ser a charge. Prometa!”
- “Tá bom… prometo.”
Prometi mas não pretendia cumprir tal e qual, pois o pedido de socorro poderia parcer demasiadamente agressivo às almas pulcras que não as de nossos avós, mas as de incontáveis contemporâneos excessivamente sensíveis aos temas celestes. Me esqueci, confiante em mais uma recuperação. Afinal hospital não era coisa difícil de ser vencida por Anilda Leão. Ela tinha vários no currículo.
Mas ela se foi. No velório, sábado à tarde, conversava com Enaura Quixabeira quando uma senhora se aproximou e, educadamente, perguntou:
“Depois, posso conversar com o senhor?”.
“Pois não.”
Enaura, polidamente, sugeriu que ela falasse ali mesmo (nossa conversa, sobre filosofia e morte, seria demorada).
“Serei rápida. É apenas para lembrar ao senhor da charge que o senhor prometeu para ela.”
“???”
“Estava com ela quando ela ligou para o senhor. Sou a Nira, a ligação foi feita de meu celular. Ela depois insistiu para que eu lhe lembrasse do prometido”.
Oquei, querida Anilda. A charge será extamente como você ditou. Estará publicada nesta terça.
Anilda Leão deixa-nos um legado fantástico. Uma mulher extraordinária, corajosa, uma mestra. Enfrentou tabus e preconceitos, especialmente desde quando, ainda muito jovem, decidiu casar-se com um homem desquitado. Carlos Moliterno foi seu companheiro de toda vida, marido e parceiro intelectual. Ela fez-se, além de poeta, escritora, cantora, atriz. Uma libertária.
A inesquecível Anilda Leão, meus respeitos e minha saudade.

Auditório Guedes de Miranda, na antiga Reitoria da UFAL, 1991: Carlos Moliterno, Anilda Leão, Marcos Davi, Lêdo Ivo, Floriano Ivo Júnior e este blogueiro num dia de homenagem à poesia.

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