quinta-feira, 3 de novembro de 2011

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA


O DRAGÃO SUBMISSO
RONALD MENDONÇA
MÉDICO E MEMBRO ELEITO DA AAL



Nos anos 60 do século 20, um parente – fumante compulsivo e contumaz freqüentador de rodas de dominó e cachaça – apareceu rouquenho. A despeito das limitações diagnósticas da época, finalmente descobriu-se um câncer na laringe. Em São Paulo, o famoso Jorge Fairbanks, do HC, amputou-lhe boa parte do órgão e garantiu-lhe uma sobrevivência  de quase duas décadas. Lembro de sua figura franzina, voz perto do inaudível, com um véu ao pescoço a proteger-lhe a redentora traqueostomia. Se a Souza Cruz perdeu um consumidor, o dominó e a branquinha comemoraram o retorno glorioso de um dos seus grandes astros.  
Desde então, muita água passaria sob a ponte. Hoje, dependendo do estágio da doença, protocolos de tratamento já dispensam o bisturi do cirurgião, as grandes mutilações, optando por modelos mais conservadores, não obstante, muitas vezes devastadores em relação ao estado geral do portador.
Como um macabro e inopinado desígnio, tendo como pano de fundo a hereditariedade e outros “fatores de risco”, a estatística mostraria sua fria face  para o nosso ex-presidente. Íntimo da caninha e do tabaco – segundo dizem - alçado à condição de semi-deus pelo povão e  puxa-sacos em geral, a doença tem despertado comentários dispares. Isolados os odientos, que exigem que Lula vá para o inferno do HGE Osvaldo Brandão -uma utopia - o câncer ex-presidencial impõe algumas reflexões.
É preciso que se diga que a população leva de 2 a 3 meses para iniciar um tratamento do qual é alvo o  ex. Pelo SUS, quimio, radioterapia e a própria cirurgia são verdadeiros rallies. No país prevalece  uma regra perversa: todos os setores financiados pelo poder público devem ter preços justos, menos os serviços médicos. É por isso que a magra sinistra deita e rola. Para piorar, há quem conspire pela não criação de novos centros de radioterapia nos Serviços Públicos...
Apologista inflamado do  sistema de saúde, a quem denominou do mais perfeito do mundo, Lula e bajuladores até que poderiam se desculpar e admitir que toda aquela fala não passava de proselitismo etílico. Mas como? Se é por essas e outras  que se está mantendo no poder o que existe de mais puro e belo, e inocente como a flor, da política brasileira.
Em meio a comoventes explosões de otimismo, uma aura a mais irisa a figura de Inácio: a de herói de corpo fechado, um São Jorge de bordel, com sua certeira lança no gogó do terrível dragão do câncer, tornado dócil, humilde  e submisso  diante de indômita coragem, de ilibada moral. Síntese de Teseu, Ulisses e Hércules, nenhum bicho cabeludo lho prevalecerá.




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