5 de novembro de 1982 - O adeus de Hulot. Morre Jacques Tati
"Hoje a gente não ri mais, presa que está à engrenagem de uma existência que lentamente nos tira o gosto das coisas simples, dos afetos".
Jacques Tati
De embolia pulmonar, durante o sono, morreu Jacques Tati, 75 anos, oito após realizar seu último filme, uma nostálgica homenagem ao music hall, ao circo as escolas de humor em que aprendeu sua própria arte de fazer rir. Desde então, a caminho dos 70 anos, cansado e sobretudo desencantado com o fracasso financeiros de seus últimos filmes, aposentou-se voluntariamente, trancou-se em seu apartamento em Paris, silenciou-se. Um final de vida difícil, apesar do êxito de seus filmes: os negativos leiloados e alguns amigos ajudaram Tati a sobreviver seus últimos anos.
Exatamente como o Monsieur Hulot, o admirável personagem que ele criara em 1951 e que o ajudara a transformar-se, segundo opinião unânime da crítica de todo mundo, numa espécie de novo Chaplin. Grande, desajeitado, calças batendo pelas canelas, chapéu e meias quadriculados, cachecol, cachimbo, guarda-chuva, o andar meio lento e recurvado, Hulot praticamente não fala em seus filmes. No máximo, emite sons, monossilabos, duas ou três palavras sem sentido. Os gestos, na verdade, são a sua linguagem. Hulot terá sido, provavelmente, o mais bem-sucedido de todos os personagens criados pelo cinema de humor nos anos de pós-guerra. Ou mesmo de antes, desde o advento do som. E, ironicamente, quase sem falar.
Tati, que na realidade chamava-se Jacques Tatischeff, nome dos avós russos, nasceu em Pecq, perto de Paris, em 9 de outubro de 1908. Sua escola foi a dos comediantes do teatro de variedades, muito cedo subindo aos palcos para fazer mímicas de jogadores de golfe, tênis, futebol. Essas imitações seriam a base de muitas de suas gags, não só na pele de Hulot, mas já no primeiro filme, Oscar o Campeão de Tênis (1932). Imitações perfeitas. Ou mais que perfeitas.
Entre direção, roteiro, produção e interpretação, vieram On Demande Ume Brute (1934), Gal Dimanche (1935), Soigne Ton Gauche (1936), Volta à Terra (1938), até a consagração como escritor e diretor em L´Ecole des Facteurs (1947).
O filme em que seu célebre personagem, Hulot, aparece pela primeira vez -As Férias do Senhor Hulot - impressionava, principalmente, por um tipo de humor bastante anticonvencional em relação ao que o cinema produzia na época. O humor de Hulot é o humor de imagens, em consonância com a proposta de Tati:" o importante é o que a câmera registra. São as situações, os gestos, os sentimentos que se é capaz de captar".
A consagração desse personagem viria com Meu Tio (1958). Sucesso na França e em toda a Europa, a obra foi agraciada com o Oscar de melhor produção em língua estrangeira.
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