MANHÃ DE DOMINGO NA JATIÚCA
Praia da Jatiúca
Um velho calção de banho e o dia
para vadiar, descalço, desço e atravesso a avenida até a praia, gostosura o pisar
na areia fofa e morna, sensação de conforto. Caminho na areia molhada, dura,
enquanto pequenas ondas molham, banham, meus pés. De um lado o marzão que não
tem tamanho, do outro, uma cortina de edifícios envidraçados, beleza da
concepção da arquitetura alagoana. Ali moram figuras famosas, senador,
governador até escritor.
É hora de chegada dos ambulantes
carregando caixas de isopor, ajeitam-se na areia. Empregados do Hotel Meliá
colocam confortáveis cadeiras brancas com sobrinhas para os hóspedes, enquanto
os nativos ricos, pobres, farofeiros com farnéis cheios, comidas, farinha e
bebida, escolhem, ocupam pedaços na praia.
A praia é o local mais democrático e
mais barato de uma cidade. Bendita Maceió com tantas praias em seu entorno.
Continuo a caminhada, duas moças bonitas estendem toalhas no chão, morenas, corpos
perfeitos, tangas bem curtas chamam atenção. As gostosas se deitam em decúbito
ventral expondo seus maravilhosos traseiros oleados, brilhantes, parecem terem
sido lapidados num torno. Mais adiante um homem forte, beirando 50 anos, apenas
de sunga vermelha, esparadrapo no ombro, faz exercícios de alongamento exibindo
o corpo musculoso às moças ao redor. Chegam famílias arrumando sombrinhas,
isopores e equipamentos.
De repente, deu-me dor no coração ao atravessar
a água corrente amarelada, contaminada, vinda de um bueiro desaguando poluição,
crime inafiançável segundo a legislação, entretanto, a lei não existe para os
bacanas que descarregam no mar os dejetos de seus valiosos edifícios. Alegro-me
ao ver Cida, a ambulante mais charmosa da Jatiúca, de biquíni varre sua área de
trabalho, coloca mesas e cadeiras, vende bebida, tira-gosto, dou um aceno de
mão, ela responde enquanto enfeita uma mesa com um buquê de espirradeira rosa.
Continuo a prazerosa andança, gostosura,
os pés lavados pela marola. Na areia uma organizada e disputada pelada de
futebol entre dois times, camisa azul e encarnada. Com medo de uma bolada na
cara, passo rápido pela faixa de Gaza, zona de perigo para banhistas onde é
permitido futebol.
Um ambulante enfeitado da cabeça aos pés
com tubos de creme amarrados em cordão, oferece sua mercadoria aos gritos,
cuidado com o sol. Na avenida os ônibus esvaziam mais passageiros, em trajes de
banho invadem a praia. São 8:00 horas, é cedo, às 10:00 horas a praia estará completamente
tomada.
Numa roda de pagode, jovens cantam,
dançam, estão abastecidos, garrafa de cachaça, de rum e muito tira-gosto. Duas
mulheres sentadas em cadeiras à beira-mar me acenam, me chamam, são minhas
leitoras, idade entre 40 e 50 anos. Elas me convidam para sentar e conversar,
acompanhá-las naquela manhã de domingo. Tenho meus compromissos, chope
dominical com os amigos, consigo educadamente me desculpar. Continuo a andança.
Na Ponta Verde dou meia-volta, retorno observando o ar alegre dos
frequentadores de praia. Um senhor empilha enormes bóias pretas de câmara de ar
de caminhão, alugam aos banhistas. Três crianças correm beira-mar levantando
água em baldes plásticos, mergulham.
No mar, bem ao fundo, um casal se
abraça, se beija, fazem amor pela manhã na água tépida da Jatiúca. Que beleza,
bendito o amor matinal dentro d’água! Um ambulante oferece queijo assado, recuso,
sem parar a caminhada observo a bela moça de biquíni rosa, sentada, pernas
cruzadas para dentro, mãos juntas como se rezasse, olha ao longe o mar,
meditação, um quadro bonito de tranquilidade, uma ilha de paz entre o
burburinho de banhistas por todos os lados. Afinal retorno ao meu ponto de
partida, edifício San Diego. Respiro fundo. O
ambulante abriu-me um coco, coloco-o levemente à boca, sugo com carinho como se
fosse o seio da mulher amada, divina água. Assim começa meu domingo, mais tarde,
chope com amigos. Na próxima semana tudo se repete, mudam alguns personagens,
entretanto, a história é a mesma, a alegria, o prazer de uma manhã de domingo
na praia de Jatiúca.

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