sexta-feira, 21 de outubro de 2011

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA


O BOM BURGUÊS E OS MAUS COMUNISTAS
RONALD MENDONÇA
MÉDICO E MEMBRO  DA ACADEMIA ALAGOANA DE LETRAS


O dramaturgo Dias Gomes teria levado  para o túmulo infinita mágoa: a de nunca ter sido preso por subversão durante a ditadura militar. “Não me conformo com essa ingratidão... Depois de tudo que fiz,  bem que eu merecia umas diazinhos de cana”, teria repetido em mais de uma entrevista.
Nascido e radicado em Murici, o diletante marxista Mozart Verçosa Damasceno, não padeceu da mesma melancolia do autor de Roque Santeiro. Com efeito, tendo como pano de fundo a biografia do velho militante, sob o título “Mozart Damasceno, o bom burguês”, o historiador Geraldo Majella recupera parte da trajetória do PCB em Alagoas.
 Pesquisador perfeccionista, Majella traça perfis de velhos camaradas ao mesmo tempo em que situa o partido no contexto histórico, trazendo importantes subsídios para a compreensão desses movimentos que, a bem da verdade, pretendiam instalar ditaduras à semelhança da soviética e, menos remotamente, das chinesa e cubana.
O fato é que Geraldo de Majella escreveu um livro que não permite interrupções na leitura. Há uma narrativa, diria, eletrizante de fatos marcantes da vida pública alagoana, ainda muito vivos, com personagens nomeados, alguns folclóricos, outros nem tanto. Por si só, o pesquisado é um figuraço.
Como dizia, tinha especial orgulho por ter sido preso logo depois de haver estourado o golpe de 64, sobretudo pela convivência com personagens carimbadas do esquerdismo alagoano. Lendo os depoimentos que Majella registrou é que a gente compreende a tristeza de Dias Gomes.
Ex-aluno do extinto Colégio Batista Alagoano, Damasceno teria se “convertido” ao comunismo graças à leitura do O Poder Soviético, opúsculo escrito pelo Decano da Cantuária, Hewlett Johnson. O detalhe é que o anglicano ofereceu um fantasioso cenário paradisíaco da Rússia dos anos 30 do século passado, época de brutal repressão.
Em 1984, convicto  de que o socialismo estava em inexorável expansão no continente europeu, o Bom Burguês, certamente teria grande desgosto ao assistir a queda do Muro e à ruína do império soviético e seus satélites.
De fácil convivência, falecido precocemente em 1987,  bem antes da farra conhecido por “bolsa-ditadura”, tal sua têmpera, não consigo ver o Bom Burguês numa fila recebendo indenizações pelos 17 dias detenção.
Nada se compararia, contudo, presenciar o clímax da degradação do PC do B,  um dos últimos bastiões a arrotar  alguma moralidade na política. Nesse aspecto, a natureza foi-lhe generosa.

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