O BOM BURGUÊS
E OS MAUS COMUNISTAS
RONALD
MENDONÇA
MÉDICO E
MEMBRO DA ACADEMIA ALAGOANA DE LETRAS
O dramaturgo Dias
Gomes teria levado para o túmulo infinita
mágoa: a de nunca ter sido preso por subversão durante a ditadura militar. “Não
me conformo com essa ingratidão... Depois de tudo que fiz, bem que eu merecia umas diazinhos de cana”,
teria repetido em mais de uma entrevista.
Nascido e
radicado em Murici, o diletante marxista Mozart Verçosa Damasceno, não padeceu
da mesma melancolia do autor de Roque Santeiro. Com efeito, tendo como pano de
fundo a biografia do velho militante, sob o título “Mozart Damasceno, o bom
burguês”, o historiador Geraldo Majella recupera parte da trajetória do PCB em
Alagoas.
Pesquisador perfeccionista, Majella traça
perfis de velhos camaradas ao mesmo tempo em que situa o partido no contexto
histórico, trazendo importantes subsídios para a compreensão desses movimentos
que, a bem da verdade, pretendiam instalar ditaduras à semelhança da soviética
e, menos remotamente, das chinesa e cubana.
O fato é que
Geraldo de Majella escreveu um livro que não permite interrupções na leitura.
Há uma narrativa, diria, eletrizante de fatos marcantes da vida pública alagoana,
ainda muito vivos, com personagens nomeados, alguns folclóricos, outros nem
tanto. Por si só, o pesquisado é um figuraço.
Como dizia,
tinha especial orgulho por ter sido preso logo depois de haver estourado o
golpe de 64, sobretudo pela convivência com personagens carimbadas do
esquerdismo alagoano. Lendo os depoimentos que Majella registrou é que a gente
compreende a tristeza de Dias Gomes.
Ex-aluno do
extinto Colégio Batista Alagoano, Damasceno teria se “convertido” ao comunismo
graças à leitura do O Poder Soviético, opúsculo escrito pelo Decano da
Cantuária, Hewlett Johnson. O detalhe é que o anglicano ofereceu um fantasioso cenário
paradisíaco da Rússia dos anos 30 do século passado, época de brutal repressão.
Em 1984,
convicto de que o socialismo estava em
inexorável expansão no continente europeu, o Bom Burguês, certamente teria
grande desgosto ao assistir a queda do Muro e à ruína do império soviético e
seus satélites.
De fácil
convivência, falecido precocemente em 1987,
bem antes da farra conhecido por “bolsa-ditadura”, tal sua têmpera, não
consigo ver o Bom Burguês numa fila recebendo indenizações pelos 17 dias
detenção.
Nada se
compararia, contudo, presenciar o clímax da degradação do PC do B, um dos últimos bastiões a arrotar alguma moralidade na política. Nesse aspecto,
a natureza foi-lhe generosa.

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