sábado, 15 de outubro de 2011

UM TEXTO DE RONALD MENDONÇA - IMPERDÍVEL


A rãzinha
Ronald Mendonça
Médico e Membro Academia Alagoana de Letras


Voltou a circular pela rede de computadores a história da rãzinha cozida. Relembro: uma rãzinha é colocada numa panela de água fria e nada tranquilamente. Um fogo maroto é aceso e esquenta o fundo da panela. Num dado momento, a temperatura atinge um nível tão gostoso que o pequeno batráquio parece se sentir ainda melhor.
 Nos seus devaneios,  ora viaja para o exterior com o salário do bolsa-família, ora nada em sua piscina na casa construída no programa Minha Casa Minha Vida. Seus filhos – que estudaram nas excelentes escolas públicas  – estão com as vagas garantidas pelo sistema de cotas. Pouco  importa se o exame  vestibular trocou de etiqueta.
 O experimento continua. A rãzinha, agora  sob uma temperatura mais elevada,  é tomada por desconhecida lassidão. Estaria doente? Os sonhos da classe média em ascensão não mais povoavam inteiramente sua mente. O corpo está mais quente do que o habitual. Evidentemente está com febre. Vivendo nos mangues, certamente foi picada pelo mosquito da dengue...
Passado o primeiro momento de pânico, volta a animar-se. Por que o desespero se o seu país, além da  excelência do ensino público, conta com o melhor sistema de saúde do planeta, aquele que o presidente classificou de “quase perfeito”? Faria os exames necessários. Se precisasse de internamento, tiraria de letra. Menos nos hospitais privados, desses gananciosos capitalistas, eternamente insatisfeitos com os valores pagos pelo Sistema. Graças a Deus, existia o inigualável sistema de saúde pública. Até o tomógrafo da Unidade de Emergência de Arapiraca (parado há meses), voltaria a funcionar, só para atendê-la.
Sentiu-se recompensada pelos pesados impostos que vinha pagando ao longo de anos. Finalmente estava vivendo num  país que valorizava a moral, a ética, a eficiência. Um país de Sarneys, Dirceus e Malufes. Falava por ela, cercada por cientistas ilustres a observá-la. Por um momento (seria alucinação?) teve a impressão de que uma senhora  a olhava com  doce olhar e a chamava de “companheira”.
Já não nadava. A temperatura estava intolerável. O estranho era que ninguém parecia se incomodar. Era assim que estava sendo tratada? Iria à imprensa. Mas a que imprensa? À hegemônica, capitalista, rancorosa, golpista,  conservadora? Não, essa não mais existe. Agora, só a oficial, a do PT e amigos. Aquela que se preocupou tanto em estudar e apontar as crises cíclicas do capitalismo que esqueceu que o muro era de barro. Pensou nisso, mas já era tarde.

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