quinta-feira, 20 de outubro de 2011

HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA


A Chacina de Jaraguá

 Praça Dois Leões (antiga Recebedoria) e Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo

                       Muitas histórias ainda não foram registradas à tinta ou nos computadores, são histórias orais passadas de pai para filho, de geração a geração. Há alguns tempos atrás corria à boca miúda dos mais velhos habitantes do bairro boêmio e histórico de Jaraguá, um fato que se deu no início do século XX, quando a República do Brasil estava engatinhando. Naquela época o bairro vivia na efervescência de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados. O porto de Jaraguá era um dos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento, como parte de sua vida.
         Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, como fosse uma grande família. Seu Augusto, estivador, homem forte, rude, líder da comunidade, ficava de olho naqueles que admiravam a beleza de sua alegre filha, Augusta, a moça mais bonita da redondeza. Ao chegar à praça, faceira, a todos encantava, contudo, apenas um lhe tocava o coração, Gumercindo, jovem espadaúdo, forte musculatura, corpo forjado no carrego de sacos de açúcar no cais do porto, tornou-se embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das duas famílias.
              Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça da Recebedoria, ao avistar Augusta de roupa domingueira, o cabo se encantou. Ficou deslumbrado com a beleza da moça, se apaixonou. Todo domingo, ele dava serviço só para admirar a menina passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia Sobral se apresentou, conversou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço.  Não admitia uma negativa, era quase proposta de casamento, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).
                Dia 14 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações enfeitadas flutuavam na enseada de Jaraguá, procissão marítima com a imagem de Jesus, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa de prolongava na Praça da Recebedoria. Tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto.
             Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas apenas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado em uma barcaça de Penedo. Os amigos encheram a festa na casa de Augustão.
             O Cabo Sobral, ao longe, percebeu a animação na casa de Augusto, encheu-se de despeito ao ver, pela janela, Gumercindo dançando coco de roda com Augusta na maior felicidade. O Cabo, enciumado, tomou várias talagadas de cachaça, embriagou-se, tentou entrar na casa de Augusto na companhia de três policiais, foram barrados na porta por Simplício, irmão do dono da casa, só podia entrar parente. O cabo alterou-se, respeitasse a autoridade, apareceram mais de 10 estivadores, ele recuou. Sobral, conhecido arruaceiro não de conformou, retornou com mais 12 policiais, foram rechaçados por braços e pontapés, a briga generalizou-se, entre tapas, murros, pontapés e faca, uma peixeirada deixou um policial morto na rua. Sobral ensandecido retornou à Delegacia Regional, armou mais de 40 homens. Montados em cavalos invadiram a praça atropelando, atirando, matando quem estava na frente. Na casa de Augusto, ao perceberem os tiros, dispersaram, pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram fuzilados. Na praça, os ambulantes, nada tinham a ver com a briga, correram para dentro da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram atiraram nos inocentes, não ficou um vivo.
            No outro dia, o governador Gabino Besouro visitou o local da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu que os cadáveres, mais de 40 mortos, fossem ajuntados em carroça de bonde e enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá. Nenhuma notícia foi publicada em jornais, nada registrado. Para abafar o caso, a Igreja determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou fechada por mais de 20 anos. Entretanto, o povo, o dono da verdade e da história, não esqueceu, ainda hoje, por tradição oral, netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do massacre de Jaraguá ouvida de seus pais, de seus avós. 

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