A Chacina de Jaraguá
Muitas histórias ainda não foram registradas à tinta ou nos
computadores, são histórias orais passadas de pai para filho, de geração a
geração. Há alguns tempos atrás corria à boca miúda dos mais velhos habitantes
do bairro boêmio e histórico de Jaraguá, um fato que se deu no início do século
XX, quando a República do Brasil estava engatinhando. Naquela época o bairro vivia
na efervescência de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e
importação de materiais industrializados. O porto de Jaraguá era um dos mais
movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em
torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços,
pescadores, homens que tinham o mar como sustento, como parte de sua vida.
Os vizinhos se conheciam, havia casamento
entre eles, como fosse uma grande família. Seu Augusto, estivador, homem forte,
rude, líder da comunidade, ficava de olho naqueles que admiravam a beleza de
sua alegre filha, Augusta, a moça mais bonita da redondeza. Ao chegar à praça,
faceira, a todos encantava, contudo, apenas um lhe tocava o coração, Gumercindo,
jovem espadaúdo, forte musculatura, corpo forjado no carrego de sacos de açúcar
no cais do porto, tornou-se embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro.
Era do gosto das duas famílias.
Certa tarde de domingo, uma pequena
patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça da
Recebedoria, ao avistar Augusta de roupa domingueira, o cabo se encantou. Ficou
deslumbrado com a beleza da moça, se apaixonou. Todo domingo, ele dava serviço
só para admirar a menina passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do
Povo. Certo dia Sobral se apresentou, conversou com o pai da moça. Não se
conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitia uma negativa, era quase proposta
de casamento, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família
(sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da
Paz).
Dia 14 de janeiro havia a festa
de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações enfeitadas flutuavam na enseada de
Jaraguá, procissão marítima com a imagem de Jesus, muitos fogos, muita alegria.
À noite a festa de prolongava na Praça da Recebedoria. Tendas para leilões,
bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça
e tira-gosto.
Nas casas eram organizadas festas
particulares frequentadas apenas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia
chegado em uma barcaça de Penedo. Os amigos encheram a festa na casa de
Augustão.
O Cabo Sobral, ao longe, percebeu
a animação na casa de Augusto, encheu-se de despeito ao ver, pela janela, Gumercindo
dançando coco de roda com Augusta na maior felicidade. O Cabo, enciumado, tomou
várias talagadas de cachaça, embriagou-se, tentou entrar na casa de Augusto na
companhia de três policiais, foram barrados na porta por Simplício, irmão do
dono da casa, só podia entrar parente. O cabo alterou-se, respeitasse a
autoridade, apareceram mais de 10 estivadores, ele recuou. Sobral, conhecido
arruaceiro não de conformou, retornou com mais 12 policiais, foram rechaçados
por braços e pontapés, a briga generalizou-se, entre tapas, murros, pontapés e
faca, uma peixeirada deixou um policial morto na rua. Sobral ensandecido
retornou à Delegacia Regional, armou mais de 40 homens. Montados em cavalos
invadiram a praça atropelando, atirando, matando quem estava na frente. Na casa
de Augusto, ao perceberem os tiros, dispersaram, pularam muro, fugiram da sanha
dos policiais. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram
fuzilados. Na praça, os ambulantes, nada tinham a ver com a briga, correram
para dentro da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral
entraram atiraram nos inocentes, não ficou um vivo.
No outro dia, o governador Gabino
Besouro visitou o local da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu
que os cadáveres, mais de 40 mortos, fossem ajuntados em carroça de bonde e
enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá. Nenhuma notícia foi
publicada em jornais, nada registrado. Para abafar o caso, a Igreja determinou
a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia
de Jaraguá ficou fechada por mais de 20 anos. Entretanto, o povo, o dono da
verdade e da história, não esqueceu, ainda hoje, por tradição oral, netos e
bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do massacre de Jaraguá
ouvida de seus pais, de seus avós.

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