AS ELEIÇÕES
DE 1950
Palácio dos Martírios
Há quem diga, uma fotografia vale mil
palavras. Embora eu seja amante da palavra, admito, certas fotografias dizem mais
que palavras. Lendo o suplemento SABER dedicado ao centenário de Arnon de
Mello, viajei no tempo revendo figuras clássicas da política alagoana dos anos
50 vestidas de paletó branco. Autoridades em inaugurações, reuniões públicas.
Meu pai, Mário Lima, coronel do Exército, foi comandante da Polícia Militar e
Secretário de Segurança durante o governo de Arnon.
Veio-me nitidamente à memória acontecimentos da eleição de 1950, a mais tumultuada da
história de Alagoas. Eu tinha apenas 10 anos, ficaram gravadas em minha mente
as reuniões realizadas em minha casa pela cúpula da oposição ao governador
Silvestre Péricles. A UDN dizia ser o único lugar seguro em Alagoas. Acompanhei
atentamente àquelas confabulações históricas dos homens de terno branco, apenas
uma mulher, Dona Leda.
Silvestre Péricles, governador honesto, era um déspota, um ditador
arbitrário, não admitia ser contrariado, nem sequer houvesse oposição. Para
eleição de 1950 encontraram um candidato de consenso o General Vieira Peixoto,
na hora do acordo, Silvestre não admitiu, não aceitou, candidato de consenso se
fosse o dele, Campos Teixeira, de vitória tranquila.
A oposição liderada pela UDN apresentou o nome de Arnon de Mello e foi à
luta. Silvestre não suportava qualquer tipo de manifestação contra o governo,
ficou desesperado quando sentiu a candidatura de Arnon crescer. Começou a
infernizar a vida da oposição. Mandou dar surras, acabar comícios, rasgar
cartazes, placas, faixas.
Certo dia, na véspera da chegada do Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato
da UDN à Presidente da República, meu pai chegou em casa perguntando e já contando
o ocorrido.
- “Sabem da nova do Silvestre? Ele passava de carro pela Praça Sergipe surpreendeu
a meninada da UDN de caminhão, pichando muro, colando cartazes do Brigadeiro e
de Arnon. Mandou parar o carro, botou a garotada para correr, puxou o revólver,
atirou para cima, gritava raivoso: “Cabras safados, arnonmelistas filhos de uma
puta vocês vão se estrepar comigo”. A juventude udenista aterrorizada correu
como pôde. O motorista deixou o caminhão na praça, foi recolhido ao DETRAN por
ordem do governador, tocaram fogo na carroceria cheia de cartazes.”
Dia seguinte foram publicados manifestos nos jornais, passados
telegramas para as autoridades federais. Temia-se por uma reação maluca de
Silvestre na chegada do Brigadeiro. Guedes de Miranda candidato à vice de Arnon
fez um grande pronunciamento, temeroso de não haver garantia do Exército
durante a eleição. Seria fatal para as pretensões de vitória da UDN
Pela tarde fui junto com minha mãe e irmãos para o centro da cidade na
casa de meu primo, o hoje pediatra Walter Lima, ficamos esperando o desfile em
carro aberto do Brigadeiro e Arnon. Meu pai ficou de prontidão no quartel do
20º Batalhão de Caçadores (hoje 59º B.Inf.Mtz.) onde era o comandante.
Enquanto aguardamos o desfile de carros vindo do aeroporto, apareceram
em grande estilo e muito barulho uma revoada de aviões da Força Aérea sediados
no Recife. Vinham desagravar o Brigadeiro, para mostrar força ou mesmo para
intimidar o governador, pretensão difícil. Na loucura de Silvestre não havia
medo, ninguém lhe intimidava.
Cerca de seis aviões voaram baixo na cidade antes e durante o desfile.
Quando deram rasantes ostensivas em cima do Palácio do Governo na Praça dos
Martírios, Silvestre saía na sacada do palácio e dava banana com o braço e uma
mão.
O Brigadeiro perdeu a eleição para Getúlio Vargas. Arnon ganhou para
governador e para deputado federal, naquela época podia candidatar-se a dois
cargos. O mais surpreendente, foi a derrota do General Góes Monteiro, eminência
parda da República na época, e irmão de Silvestre, perdeu a eleição de Senador
da República para Ezequias da Rocha, um obscuro médico de Major Isidoro.
A posse de Arnon de Mello se deu em 31 de janeiro de 1951 com muita
festa popular. Diz a lenda que Silvestre executou uma retirada estratégica na
noite de 29/30, as paredes do salão de despacho amanheceram com manchas
indefinidas de cor marrom, ao constatar ser merda, imediatamente foram pintadas
para a solenidade. Assim foram as eleições de 1950 nas Alagoas.

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