quinta-feira, 6 de outubro de 2011

HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA


                        AS ELEIÇÕES DE 1950

Palácio dos Martírios

      Há quem diga, uma fotografia vale mil palavras. Embora eu seja amante da palavra, admito, certas fotografias dizem mais que palavras. Lendo o suplemento SABER dedicado ao centenário de Arnon de Mello, viajei no tempo revendo figuras clássicas da política alagoana dos anos 50 vestidas de paletó branco. Autoridades em inaugurações, reuniões públicas. Meu pai, Mário Lima, coronel do Exército, foi comandante da Polícia Militar e Secretário de Segurança durante o governo de Arnon.
     Veio-me nitidamente à memória acontecimentos da eleição de 1950, a mais tumultuada da história de Alagoas. Eu tinha apenas 10 anos, ficaram gravadas em minha mente as reuniões realizadas em minha casa pela cúpula da oposição ao governador Silvestre Péricles. A UDN dizia ser o único lugar seguro em Alagoas. Acompanhei atentamente àquelas confabulações históricas dos homens de terno branco, apenas uma mulher, Dona Leda.
     Silvestre Péricles, governador honesto, era um déspota, um ditador arbitrário, não admitia ser contrariado, nem sequer houvesse oposição. Para eleição de 1950 encontraram um candidato de consenso o General Vieira Peixoto, na hora do acordo, Silvestre não admitiu, não aceitou, candidato de consenso se fosse o dele, Campos Teixeira, de vitória tranquila.
       A oposição liderada pela UDN apresentou o nome de Arnon de Mello e foi à luta. Silvestre não suportava qualquer tipo de manifestação contra o governo, ficou desesperado quando sentiu a candidatura de Arnon crescer. Começou a infernizar a vida da oposição. Mandou dar surras, acabar comícios, rasgar cartazes, placas, faixas.
     Certo dia, na véspera da chegada do Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN à Presidente da República, meu pai chegou em casa perguntando e já contando o ocorrido.
     - “Sabem da nova do Silvestre? Ele passava de carro pela Praça Sergipe surpreendeu a meninada da UDN de caminhão, pichando muro, colando cartazes do Brigadeiro e de Arnon. Mandou parar o carro, botou a garotada para correr, puxou o revólver, atirou para cima, gritava raivoso: “Cabras safados, arnonmelistas filhos de uma puta vocês vão se estrepar comigo”. A juventude udenista aterrorizada correu como pôde. O motorista deixou o caminhão na praça, foi recolhido ao DETRAN por ordem do governador, tocaram fogo na carroceria cheia de cartazes.”
      Dia seguinte foram publicados manifestos nos jornais, passados telegramas para as autoridades federais. Temia-se por uma reação maluca de Silvestre na chegada do Brigadeiro. Guedes de Miranda candidato à vice de Arnon fez um grande pronunciamento, temeroso de não haver garantia do Exército durante a eleição. Seria fatal para as pretensões de vitória da UDN
      Pela tarde fui junto com minha mãe e irmãos para o centro da cidade na casa de meu primo, o hoje pediatra Walter Lima, ficamos esperando o desfile em carro aberto do Brigadeiro e Arnon. Meu pai ficou de prontidão no quartel do 20º Batalhão de Caçadores (hoje 59º B.Inf.Mtz.) onde era o comandante.
      Enquanto aguardamos o desfile de carros vindo do aeroporto, apareceram em grande estilo e muito barulho uma revoada de aviões da Força Aérea sediados no Recife. Vinham desagravar o Brigadeiro, para mostrar força ou mesmo para intimidar o governador, pretensão difícil. Na loucura de Silvestre não havia medo, ninguém lhe intimidava.
   Cerca de seis aviões voaram baixo na cidade antes e durante o desfile. Quando deram rasantes ostensivas em cima do Palácio do Governo na Praça dos Martírios, Silvestre saía na sacada do palácio e dava banana com o braço e uma mão.
       O Brigadeiro perdeu a eleição para Getúlio Vargas. Arnon ganhou para governador e para deputado federal, naquela época podia candidatar-se a dois cargos. O mais surpreendente, foi a derrota do General Góes Monteiro, eminência parda da República na época, e irmão de Silvestre, perdeu a eleição de Senador da República para Ezequias da Rocha, um obscuro médico de Major Isidoro.
       A posse de Arnon de Mello se deu em 31 de janeiro de 1951 com muita festa popular. Diz a lenda que Silvestre executou uma retirada estratégica na noite de 29/30, as paredes do salão de despacho amanheceram com manchas indefinidas de cor marrom, ao constatar ser merda, imediatamente foram pintadas para a solenidade. Assim foram as eleições de 1950 nas Alagoas.
       

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